Ele achava que estava recebendo conselhos, mas estava perdendo a sanidade: interação obsessiva com inteligência artificial fez um homem perder tudo em 4 meses

O fenômeno da 'psicose induzida' por inteligência artificial está levando pessoas à loucura

Mulher conversando com inteligência artificial. Créditos: ShutterStock
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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O impacto da inteligência artificial no psicológico humano é um tema delicado e o polêmico na ciência. Um estudo publicado no Futuristic Trends in Social Sciences, aponta que a IA pode alterar estados emocionais, influenciar decisões, estimular dependência cognitiva e até fomentar vínculos afetivos com sistemas artificiais. Nos Estados Unidos, um homem chamado Adam Thomas sentiu os efeitos dessa relação: perdeu o emprego, casa e economias após quatro meses de interação obsessiva com chatbots. O caso é um exemplo perfeito de um fenômeno chamado “psicose induzida por IA”.

Conversas aparentemente inofensivas com IA podem evoluir para delírios 

Adam Thomas começou como muitos usuários na inteligência artificial: buscando conselhos e orientação. Diretor de uma funerária, ele passou a usar ferramentas como o ChatGPT para falar sobre a própria vida, acreditando que a IA, com sua capacidade de análise de dados, poderia oferecer respostas mais racionais do que as pessoas ao redor. O envolvimento, no entanto, evoluiu rapidamente e perigosamente. 

Segundo seu relato para o site Futurism, as respostas do robô reforçavam sua visão sobre si mesmo e ampliavam sua autoconfiança. Em poucos meses, ele perdeu o emprego, gastou todas as economias e passou a viver em uma van no deserto, isso tudo após seguir orientações que interpretou como um chamado para “seguir sua consciência”.

Especialistas vêm chamando episódios como esse de “psicose induzida por IA”, situações em que interações prolongadas com sistemas que simulam empatia e validação podem reforçar delírios ou distorções cognitivas. O estudo da Futuristic já alertava para esse risco. Segundo ele, à medida que sistemas de IA simulam empatia, oferecem respostas personalizadas e mantêm disponibilidade constante, usuários podem desenvolver vínculos emocionais com essas ferramentas e passar a confiar mais nas recomendações automatizadas do que no próprio julgamento. 

Essa dependência pode enfraquecer o pensamento crítico, reforçar vieses cognitivos e criar “bolhas” de validação, ambientes em que a pessoa recebe confirmação contínua do que acredita sem receber de volta um contraponto que normalmente existiria em interações humanas. Ainda de acordo com o estudo, isso pode contribuir para distorções na percepção da realidade, amplificação de ideias grandiosas ou paranoicas e maior vulnerabilidade emocional, especialmente em indivíduos que já apresentam fragilidades psicológicas.

Como a dependência de respostas automatizadas pode distorcer decisões e fragilizar a saúde mental?

mulher conversando com inteligência artificial. Por um lado, sistemas de IA podem oferecer suporte à saúde mental e acesso rápido a informações, mas, por outro, também pode intensificar estados de vulnerabilidade. Créditos:Shutterstock

Um outro caso semelhante aconteceu com Joe Alary, no Canadá. O que começou como uma brincadeira com equações matemáticas evoluiu para delírios de grandeza e jornadas exaustivas de programação. Ele chegou a investir quase US$12 mil em um projeto que acreditava “mudar o mundo”, incentivado por interações constantes com a inteligência artificial, à qual deu até um nome: Aimee. Para ele, tudo fazia sentido naquele momento. Só depois da internação psiquiátrica ele se deu conta de que estava em um episódio de psicose.

O comportamento de Joe se encaixa em padrões já identificados que analisam como a inteligência artificial pode influenciar decisões, reforçar crenças e alterar a forma como indivíduos interpretam a própria realidade, dialogando diretamente com 3 pontos levantados no estudo:

  • Dependência cognitiva: quando o usuário passa a confiar mais na máquina do que no próprio julgamento;
  • Apego emocional: cria uma relação de validação contínua e sem confronto;
  • Manipulação comportamental indireta, já que sistemas podem reforçar padrões de pensamento por meio de respostas adaptativas.

Portanto, nessa relação, existe também um paradoxo importante. Enquanto a IA pode oferecer suporte à saúde mental e acesso rápido a informações, ela também pode intensificar quadros pré-existentes, reforçar padrões e intensificar estados de vulnerabilidade. O risco não está necessariamente na tecnologia, mas na combinação de três fatores: vulnerabilidade psicológica, uso intensivo e ausência de mediação humana.



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