Acreditava-se que macacos não seriam capazes de interagir com objetos imaginários, mas este estudo acaba de provar o contrário

O bonobo Kanzi demonstrou ser capaz de representação secundária desacoplada

Macacos / Imagem: Will Rust
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin é jornalista.

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Kanzi é um macaco bonobo famoso mundialmente por seu domínio dos lexigramas para se comunicar. Ele é também o protagonista de um estudo publicado nesta semana na revista Science que tem o potencial de reescrever os livros sobre evolução. E não é para menos, já que Kanzi não apenas sabe pedir comida, como sabe fingir que a come quando ela ainda não está ali, estando plenamente consciente do que faz.

O estudo apresenta a evidência mais sólida até hoje da representação de objetos fingidos em um grande símio. Para um humano, fingir que está tomando café e usando uma xícara inexistente na mão é algo muito simples de fazer. Mas, até agora, nos símios, isso parecia algo impensável.

Mas, para demonstrar que estávamos equivocados quanto à nossa qualidade exclusiva, o estudo elaborou um experimento em que Kanzi foi sentado à mesa e interagiu com objetos vazios. Os cientistas fingiram despejar suco de uma garrafa vazia em um copo e comer “uvas” que na verdade não existiam. Kanzi não apenas imitou os humanos: ele entrou na brincadeira com uma precisão impressionante, como se realmente estivesse imaginando.

O objetivo era descartar que Kanzi estivesse simplesmente copiando movimentos sem entender o conceito básico. Para isso, a equipe elaborou três testes. O primeiro deles começava com o pesquisador fingindo despejar suco em um de vários copos vazios. Depois, pedia-se a Kanzi que interagisse com eles, escolhendo um.

Nesse caso, em 68% das 50 provas, Kanzi escolheu o copo que “continha” o suco imaginário, ignorando os outros copos idênticos, mas “vazios”.

Aqui está o ponto crucial da pesquisa, já que, se Kanzi estivesse confuso, trataria o suco real e o imaginário da mesma forma. Não foi assim, pois, quando teve de escolher, Kanzi preferiu o objeto real em 78% dos casos. Algo que pode parecer insignificante, mas que demonstra que ele mantém duas representações mentais simultâneas: a realidade física do copo vazio e a realidade fingida em que brincamos de que o copo tem suco.

O mesmo ocorreu quando, em vez de suco, foram usadas uvas imaginárias, situação em que Kanzi manteve 69% de acerto ao identificar a localização da comida fingida.

Desacoplando a realidade

O termo técnico que está sendo analisado neste caso é a representação secundária desacoplada, que é a capacidade do cérebro de sustentar uma imagem do mundo que contradiz a informação sensorial direta, ou seja, aquilo que está sendo visto ou ouvido.

Até agora, discutia-se se essa habilidade surgiu com a linguagem humana moderna, mas os resultados de Kanzi sugerem que essa “faísca” da imaginação já estava presente no ancestral comum que compartilhamos com os bonobos e chimpanzés há entre 6 e 9 milhões de anos.

Isso também muda nossa compreensão do jogo infantil, já que, quando uma criança de dois anos pega uma banana e finge que ela é um telefone, está exercitando um músculo cognitivo que a evolução vem refinando muito antes de existirem telefones ou bananas cultivadas.

É preciso levar em conta, porém, que esses experimentos não foram feitos com um bonobo qualquer, mas sim com um símio que passou a vida cercado de humanos e é treinado no uso dos lexigramas, o que faz com que tenha capacidades extraordinárias.

Esse contexto faz surgir alguns críticos, como o psicólogo comparativo Daniel Povinelli, que argumenta que esses resultados podem ser fruto de um treinamento intensivo que “humaniza” a mente do símio, mais do que uma capacidade natural em estado selvagem. 

Imagens | Will Rust

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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