Com mais de 100 hectares e até 60 mil contêineres marítimos empilhados, o Bazar Dordoi, em Bishkek, capital do Quirguistão, parece uma cidade construída inteiramente de metal. O gigante mercado surgiu após o colapso da União Soviética, em 1991, e se transformou em um dos principais motores econômicos do país.
Por seus corredores circulam diariamente comerciantes, carregadores, vendedores e compradores, enquanto toneladas de mercadorias vindas principalmente da China e da Turquia são distribuídas para diferentes partes da Ásia Central. Além do centro comercial, Dordoi também possui lojas, armazéns, restaurantes, hotéis, casas de câmbio, serviços médicos, uma mesquita e um quartel de bombeiros. Hoje, o mercado também atravessa uma nova fase, pressionado pela digitalização do comércio e pelos planos do governo para modernizar sua estrutura.
Um labirinto de contêineres se transformou em uma cidade dentro de Bishkek
Para entender como Dordoi se transformou no que é hoje, é preciso voltar um pouco no tempo e relembrar a sua história. Com o colapso da União Soviética, em 1991, fábricas foram fechadas e milhares de pessoas perderam seus empregos, obrigando muitas famílias a buscar novas formas de sustento no comércio. Foi aí que começaram a surgir mercados construídos com contêineres em diferentes países do antigo território soviético. Em meio a essa transformação, o Dordoi cresceu e acabou se tornando um dos principais centros comerciais do Quirguistão.
Ao longo dos anos, o espaço cresceu rapidamente e passou a concentrar uma enorme rede de comerciantes e fornecedores. No espaço, ao invés de corredores comuns, os visitantes encontram fileiras de contêineres que funcionam como pequenas lojas, depósitos e escritórios. Entre os itens vendidos, o vestuário se tornou uma das principais atividades do mercado, com produtos vindos principalmente da China e da Turquia. Porém, também é possível encontrar praticamente todo tipo de mercadoria.
A movimentação é organizada por uma complexa rede de trabalhadores. Carrinhos carregados de produtos atravessam os corredores até os pontos de embalagem próximos ao terminal rodoviário, onde as mercadorias são compactadas para ocupar o menor espaço possível durante o transporte. Diversos idiomas também se misturam pelos corredores, refletindo as conexões comerciais do Quirguistão com outros países da Ásia Central, além da China e da Rússia.
Os contêineres que movimentam negócios e ajudam comerciantes a sobreviver às crises
Em um país que passou por profundas mudanças econômicas desde o fim da União Soviética, o comércio se tornou uma alternativa para quem buscava renda e estabilidade. Por isso, o Dordoi deixou de ser apenas um lugar para comprar e vender mercadorias e passou a funcionar como uma rede de trabalho, negócios e oportunidades. Por essa razão, para milhares de pessoas, o mercado se transformou em uma fonte de renda e em uma alternativa diante das instabilidades econômicas do país.
Entre os comerciantes estão muitas mulheres que encontraram no bazar uma maneira de conquistar independência financeira. Algumas chegaram ao mercado depois de mudanças pessoais ou dificuldades econômicas e construíram negócios próprios a partir de um único contêiner. A estrutura também passou a funcionar como um investimento. Dependendo da localização, um contêiner pode valer dezenas ou até centenas de milhares de dólares, enquanto os espaços mais disputados podem gerar renda por meio do aluguel ou subarrendamento.
Essa valorização revela uma característica singular do Dordoi: a localização dentro do próprio mercado pode determinar o valor de um negócio. Os contêineres instalados nas áreas de maior circulação são mais cobiçados, enquanto comerciantes de regiões menos movimentadas precisam encontrar outras formas de atrair clientes.
O mercado, porém, não passou ileso pelas mudanças econômicas e geopolíticas. A entrada do Quirguistão na União Econômica Eurasiática, em 2015, alterou as regras de importação e afetou fortemente o comércio com a China. Depois vieram a pandemia e as consequências econômicas da guerra na Ucrânia, que também atingiram as relações comerciais com a Rússia.
Mesmo assim, Dordoi encontrou uma maneira de se adaptar a tudo isso. Durante a pandemia, comerciantes passaram a receber pedidos por WhatsApp e Telegram, enquanto uma nova geração de vendedores começou a utilizar Instagram e grandes plataformas de comércio eletrônico russas para vender produtos que continuam sendo selecionados fisicamente dentro do bazar.
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