Este elefante resgatado passou 40 anos em um zoológico. Agora deverá percorrer 1.600 km rumo à sua nova vida em um santuário brasileiro

Sandro precisou aprender a entrar voluntariamente na própria estrutura de transporte antes da viagem.

Um elefante resgatado que viveu 40 anos em um zoológico
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
nayanne-louise

Nayanne Louise

Subeditora
nayanne-louise

Nayanne Louise

Subeditora

Jornalista pela Universidade Estácio de Sá - UNESA. Longa experiência em comunicação de grandes marcas, especialista em SEO, entusiasta da ciência, tecnologia, meio ambiente e curiosidades.


19 publicaciones de Nayanne Louise

Um elefante chamado Sandro passou mais de 40 anos no mesmo zoológico, mas agora, aos 54 anos de idade, precisou percorrer 1.615 quilômetros para chegar a um lugar completamente diferente: um santuário para elefantes no Mato Grosso. A jornada começou após anos de preparação e, antes de embarcar no transporte, o animal teve de se acostumar durante vários dias com uma enorme caixa projetada para levá-lo em segurança até o novo lar.

No dia 18 de setembro, ele finalmente desembarcou no Santuário de Elefantes Brasil, em Chapada dos Guimarães. Não era uma transferência qualquer: depois de quatro décadas em cativeiro, o objetivo era garantir que passasse o restante da vida em um espaço amplo, com muito mais possibilidades para explorar o ambiente.

Antes de viajar, ele precisou aprender a entrar na própria caixa

A operação teve início vários dias antes de o caminhão partir de Sorocaba. Em 11 de setembro, uma caixa de transporte preparada sob medida para Sandro foi colocada dentro de seu recinto. Em vez de forçá-lo a entrar, os tratadores utilizaram reforço positivo para que o gigante pudesse se aproximar, explorar e se habituar ao compartimento.

A proposta era fazê-lo entrar por vontade própria — e a estratégia funcionou. Ele finalmente deu o passo decisivo e, em 16 de setembro, teve início a viagem rumo ao Mato Grosso. A estrutura foi acomodada sobre um caminhão, e o percurso de pouco mais de 1.600 quilômetros foi concluído em aproximadamente dois dias e meio.

Ao longo de todo o trajeto, Sandro recebeu alimento e água sob vigilância constante da equipe de cuidadores. Sua dieta seguiu o padrão mais próximo possível do que já recebia em Sorocaba, mantendo inclusive os mesmos fornecedores.

Uma trajetória que começou nos picadeiros

Sandro não chegou ao zoológico vindo diretamente da natureza. De acordo com os registros do Santuário de Elefantes Brasil, o animal foi capturado na Ásia em 1971, quando ainda era filhote. Naquele mesmo ano, foi levado para um zoológico na Holanda e, mais tarde, viajou ao Brasil com o circo Orlando Orfei.

Ele enfrentou cerca de uma década em apresentações itinerantes até ser transferido, em 1982, para o Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba, interior de São Paulo. Ali permaneceu pelos 44 anos seguintes.

Um elefante no zoológico

Em 1995, chegou Haisa, outra elefanta asiática que se tornou sua grande companheira. Ambos dividiram o recinto por cerca de 25 anos, até a morte dela em 2020. Desde então, Sandro não voltou a ter outro parceiro da mesma espécie no local.

A transferência para o santuário foi objeto de uma longa disputa judicial entre grupos que defendiam sua permanência no zoo e defensores que buscavam levá-lo para uma reserva especializada. A transferência foi finalmente homologada e executada em setembro de 2026.

A nova rotina não significa um retorno total à natureza

O Santuário de Elefantes Brasil não é um projeto para reintroduzir os animais à vida selvagem. Trata-se de um refúgio de cuidados permanentes, onde esses elefantes conseguem circular por amplas áreas naturais, explorar diferentes relevos e desenvolver atividades no seu próprio ritmo.

Sandro chegou no dia 18 de setembro e deu início ao processo de adaptação de forma gradual. Passou primeiro por uma detalhada avaliação veterinária e, em seguida, teve acesso a uma área reservada para recebê-lo. A expansão do território disponível acontecerá progressivamente, conforme seu comportamento e grau de segurança.

Um dos detalhes mais emblemáticos desse início foi imediato: assim que saiu da caixa, Sandro teve contato com terra batida e lama, uma experiência muito distante da rotina de concreto vivida durante décadas.

A instituição já acolhe outros elefantes asiáticos, mas Sandro cumprirá inicialmente uma rotina em separado. A ideia é garantir que ele assimile o novo ambiente antes de ampliar, aos poucos, as possibilidades de socialização e movimentação.

Um elefante no zoológico

A viagem terminou, mas a adaptação está apenas começando

Para Sandro, os 1.615 quilômetros foram apenas a etapa inicial de uma transformação muito maior. Durante mais de quatro décadas, seu cotidiano esteve condicionado aos limites do zoológico paulista; agora, ele precisará se familiarizar com um novo habitat, novos horizontes, texturas de solo inéditas e uma dinâmica de manejo diferente.

A chegada ao refúgio não apaga as décadas pregressas, mas sinaliza uma virada expressiva: depois de passar praticamente toda a vida adulta confinada no mesmo espaço, Sandro tem agora um território inteiro por descobrir. A viagem por estrada terminou no Mato Grosso; a sua nova jornada, no entanto, acaba de começar.


Inicio