EUA e China disputam mercado de energia na África: um investe em gás e petróleo; o outro, em painéis solares

A China já é a fornecedora da infraestrutura para praticamente toda a energia solar da África

Energia eólica
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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O continente africano possui enorme potencial econômico porque tem de tudo: gás, petróleo, minerais e outras coisas mais mundanas, mas igualmente valiosas em tempos de transição energética, como vento e luz solar. Não por acaso, 2025 foi o ano de maior crescimento da energia solar de sua história.

Mas, no continente africano, competem dois modelos energéticos diametralmente opostos: o ainda vigente, centrado no petróleo e no gás, no qual os EUA têm um papel hegemônico, e o chinês, baseado em tecnologias solares e de baterias cada vez mais baratas. Além do aspecto climático, a questão financeira tem um peso fundamental em economias em desenvolvimento e com recursos limitados.

De acordo com o relatório Africa Market Outlook for Solar PV 2026-2029, a África instalou cerca de 4,5 GW de instalações fotovoltaicas em 2025, 54% a mais que no ano anterior, o que representa um aumento meteórico. Lideram a lista a África do Sul, com 1,6 GW novos, seguida pela Nigéria (803 MW) e pelo Egito (500 MW).

Tão importante quanto o número é que esse crescimento não ficou restrito a poucas nações, já que oito países africanos instalaram mais de 100 MW em 2025, enquanto, no ano anterior, eram apenas quatro: a África está se mobilizando por inteiro, tanto no setor público quanto no privado.

Disputa geopolítica

Na África, está sendo travada uma batalha entre o presente e o futuro (entre outras coisas, porque o petróleo tem prazo de validade), entre dois modelos diferentes e também entre as duas potências mais poderosas do mundo, além de um vetor para fortalecê-las ou enfraquecê-las. Assim, enquanto os EUA estão reativando empréstimos para projetos de gás, como o de Moçambique, a China já é a fornecedora da infraestrutura para praticamente toda a energia solar da África: somente em 2025, exportou 16 GW de painéis para o continente, segundo dados da AFSIA divulgados pelo jornal China Daily.

No mercado energético do petróleo, os EUA têm um peso enorme; no das energias renováveis, quem dá as cartas em termos de fornecimento de materiais é a China. O que está em jogo são infraestruturas, acordos comerciais, dependências tecnológicas e alianças.

O poderio da China nas energias renováveis não é algo novo nem deveria pegar ninguém de surpresa: a Agência Internacional de Energia já havia antecipado, em 2022, que o mundo dependeria quase completamente da China para o fornecimento de componentes fundamentais para a energia solar, com uma participação superior a 80% em todas as etapas de fabricação. Em alguns casos, como nas lâminas de silício ou no polissilício, chega a 95%.

A China tem a infraestrutura e a indústria que lhe permitiram inovar, produzir em massa e reduzir custos, o que permitiu à África se atualizar com a energia solar. Por sua vez, Trump e seu governo vêm, desde 2025, tentando reativar projetos de hidrocarbonetos para tentar extrair até a última gota de combustíveis fósseis.

Um novo tipo de dependência

Os custos dos painéis (geração) e das baterias (armazenamento) despencaram nos últimos tempos, o que permite que regiões, famílias e empresas possam evitar apagões e a volatilidade dos preços dos combustíveis importados.

Como explica Sonia Dunlop, diretora-executiva do órgão responsável pelo relatório, a combinação de energia solar e armazenamento é a maneira mais realista de proporcionar acesso à energia, desenvolvimento sustentável e resiliência climática ao continente. O relatório explica, além disso, que, com a ajuda de regulamentação e financiamento, a África poderia instalar mais de 33 GW de capacidade solar até 2029.

A economia do gás ou do petróleo tem a enorme desvantagem de depender de países exportadores e de seus preços, como estamos sofrendo neste momento, mas deixar isso para trás em favor de energias renováveis como a solar não significa que os problemas tenham acabado: a dependência muda, deixando de estar relacionada à disponibilidade do recurso em si e passando a estar relacionada à tecnologia que permite aproveitá-lo. E aí quem manda é a China, fornecedora do hardware necessário.

Imagem | Doug Bagg (Unsplash)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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