O trabalho de escavação em uma antiga sepultura no sul da Alemanha acabou revelando muito mais do que os arqueólogos imaginavam. Em 2023, durante pesquisas no sítio arqueológico de Nördlingen, na região da Suábia, no estado da Baviera, uma equipe encontrou uma espada de bronze datada de aproximadamente 3.400 anos.
O artefato, pertencente à Idade do Bronze Média, surpreendeu não apenas pela idade, mas pelo estado de conservação totalmente incomum para objetos tão antigos. Além desse detalhe, a peça faz parte de um grupo raro das chamadas espadas octogonais e acabou se tornando alvo de uma investigação científica detalhada em Berlim.
A espada foi localizada ao lado dos restos mortais de um homem, em uma sepultura que também continha os esqueletos de uma mulher e de uma criança, além de outros objetos de bronze possivelmente ligados a rituais funerários. O contexto chamou atenção dos pesquisadores porque muitas tumbas da região foram saqueadas ao longo dos séculos, o que torna a preservação do artefato ainda mais inacreditável.
A ausência de marcas de impacto na lâmina também levanta a hipótese de que a arma possa ter sido produzida especificamente para acompanhar o sepultamento, possivelmente pertencendo a alguém de alto status militar ou social.
Análises de alta tecnologia revelam como a espada foi fabricada
Espada foi encontrada em sepultura ao lado de restos mortais de um homem, mulher e criança. Créditos: Archäologie-Büro Dr. Woidich / Sergiu Tifui
Descobrir uma espada com mais de três mil anos já seria impressionante por si só. Mas entender exatamente como ela foi feita, sem danificá-la, foi o que realmente transformou o achado em um marco científico. Após o anúncio da descoberta, o Escritório Estatal da Baviera para a Preservação de Monumentos conduziu um estudo aprofundado para investigar como a arma foi produzida e decorada. Para isso, os pesquisadores recorreram exclusivamente a métodos não destrutivos, preservando integralmente a peça.
No Helmholtz-Zentrum Berlin, a espada passou por tomografia computadorizada de alta resolução e difração de raios X. Já no síncrotron BESSY II, foi aplicada espectroscopia de fluorescência de raios X para mapear a composição química do metal. As imagens revelaram detalhes invisíveis a olho nu. A lâmina se estende para dentro do cabo por meio de uma espiga fixada com rebites, uma técnica sofisticada para a época. As análises também identificaram marcas de ferramentas e vestígios do acabamento final, permitindo reconstituir etapas como fundição, forja e polimento.
Além disso, os testes de tensão residual ajudaram a indicar que a espada provavelmente foi produzida no sul da Alemanha, região que, na Idade do Bronze, funcionava como um importante centro de distribuição desse tipo de arma no norte da Europa continental, ao lado de áreas no norte alemão e na atual Dinamarca.
Exames de alta precisão mostram que o acabamento do pomo utilizou cobre para criar contraste visual com o bronze
Além da preservação excepcional, com partes da lâmina ainda exibindo brilho metálico e fio quase intacto, um detalhe chamou atenção dos pesquisadores: os sulcos geométricos no pomo da espada. Inicialmente, acreditava-se que as incrustações fossem feitas de estanho. No entanto, os exames mostraram que o material é composto majoritariamente por fios de cobre, com traços mínimos de estanho e chumbo associados à liga de bronze.
Os especialistas acreditam que essa escolha tenha sido intencional, para reforçar o contraste entre o cobre avermelhado e o bronze dourado, sugerindo um efeito estético planejado, possivelmente realçado por um processo de escurecimento químico da superfície.
A descoberta também surpreendeu pelo nível de habilidade metalúrgica das populações da cultura Urnfield, uma sociedade da Idade do Bronze Final que se espalhou por grande parte da Europa Central entre aproximadamente 1300 a.C. e 750 a.C. Eles eram conhecidos por possuir costume funerário característico: cremavam seus mortos e depositavam as cinzas em urnas de cerâmica, que eram enterradas em campos organizados, em vez de grandes túmulos individuais.
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