Esqueça os antidepressivos tradicionais: spray nasal com composto de veneno de sapo reduz depressão resistente

Estudo clínico com 193 participantes identificou redução dos sintomas de depressão resistente após a aplicação de uma versão sintética da substância psicodélica 

Imagem mostra pesquisadora em um laboratório mexendo em tubos de ensaio
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Natália P. Martins

Redatora
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Natália P. Martins

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Um spray nasal experimental desenvolvido a partir de uma molécula encontrada nas secreções de um sapo do deserto apresentou resultados promissores no tratamento da depressão resistente. Em um estudo publicado na revista científica JAMA em 26 de outubro de 2026, uma única aplicação do medicamento reduziu os sintomas de adultos que não haviam respondido a tentativas anteriores com antidepressivos.

A substância é a mebufotenina, também conhecida como 5-MeO-DMT. Ela pertence à classe dos psicodélicos e foi produzida em laboratório em uma formulação farmacêutica, com concentração controlada.  

A pesquisa envolveu 193 pessoas com depressão moderada a grave que não haviam apresentado melhora satisfatória após tentar de dois a cinco antidepressivos durante o episódio depressivo atual. Cerca de um mês depois da aplicação, entre 18% e 26% dos participantes que receberam as doses do medicamento estavam em remissão dos sintomas. No grupo de comparação, o índice foi de 8%.

Apesar dos resultados, o tratamento ainda está em fase experimental. Os pesquisadores consideram que são necessários novos estudos para confirmar sua eficácia e segurança antes de uma eventual aprovação para uso clínico.

Molécula psicodélica encontrada em secreções de sapo foi produzida em laboratório

A mebufotenina, ou 5-MeO-DMT, é uma substância psicodélica encontrada naturalmente nas secreções do sapo-do-rio-Colorado (Incilius alvarius), também conhecido como sapo-do-deserto-de-Sonora. O animal vive em regiões áridas da América do Norte e ficou conhecido pela presença dessa molécula em suas secreções.

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No estudo publicado no JAMA, os cientistas utilizaram uma versão produzida em laboratório, chamada benzoato de mebufotenina. A formulação foi desenvolvida para permitir a administração de uma dose padronizada por meio de um spray nasal.

A substância atua principalmente sobre receptores de serotonina no cérebro, especialmente os tipos 5-HT1A e 5-HT2A. Esses receptores participam de processos relacionados ao humor e à atividade cerebral. A ação sobre eles também está associada aos efeitos psicodélicos da molécula.

A hipótese investigada pelos pesquisadores é que uma experiência psicodélica de curta duração possa desencadear mudanças associadas à redução dos sintomas depressivos. Ainda não se conhece completamente o mecanismo responsável pela melhora observada, e os resultados do ensaio não permitem afirmar que esse efeito será igual para todos os pacientes.

Estudo acompanhou 193 pessoas que não responderam a até cinco antidepressivos

O ensaio clínico reuniu 193 adultos com depressão resistente ao tratamento, com idades entre 18 e 75 anos. Todos apresentavam um episódio de depressão moderada a grave que não havia respondido adequadamente a pelo menos duas tentativas de tratamento com antidepressivos, podendo chegar a cinco.

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Os participantes foram distribuídos em três grupos. Um recebeu uma única dose de 8 mg de benzoato de mebufotenina; outro, 12mg; e o terceiro recebeu 0,3 mg da mesma substância, uma quantidade considerada baixa demais para provocar os efeitos psicodélicos perceptíveis esperados. A administração ocorreu em centros de pesquisa, com acompanhamento profissional e suporte psicológico.

Após 29 dias, os pesquisadores observaram que 26% dos participantes que receberam 8mg e 18% daqueles que receberam 12mg estavam em remissão dos sintomas. No grupo que recebeu a dose baixa, a proporção foi de 8%.

As taxas de resposta ao tratamento — que indicam uma redução significativa dos sintomas, mas não necessariamente o desaparecimento deles — foram de 35% no grupo de 8 mg e 34% no de 12 mg. Entre os participantes que receberam 0,3 mg, o índice foi de 12%.

Spray ainda precisa passar pela fase 3 dos testes clínicos

O estudo foi financiado pela Beckley Psytech, empresa ligada à AtaiBeckley. A pesquisa foi realizada em 38 centros na Austrália, na Europa e nos Estados Unidos, com acompanhamento dos participantes por até oito semanas.

Por enquanto, os resultados correspondem à fase 2b dos ensaios clínicos. A próxima etapa é a fase 3, que costuma envolver um número maior de participantes e busca confirmar os resultados de eficácia e segurança antes de uma eventual solicitação de aprovação regulatória.O spray ainda não está disponível como tratamento convencional e seu uso permanece restrito a pesquisas clínicas. 

Imagens: Shutterstock

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