A biodiversidade do isolamento: estudo descobre que alguns tipos de bactérias da Antártida só podem ser encontrados ali

A adaptação pela qual passaram fez com que essas bactérias se diferenciassem de suas "parentes", que estão espalhadas por toda a Terra

Antártida
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
victor-bianchin

Victor Bianchin

Redator
victor-bianchin

Victor Bianchin

Redator

Victor Bianchin é jornalista.

2562 publicaciones de Victor Bianchin

A Antártida é um lugar que pode fascinar qualquer microbiologista devido à adaptação pela qual suas diferentes bactérias passaram. Tanto que uma nova análise genética em larga escala dos solos da Antártida demonstrou que o continente gelado tem suas próprias regras: a grande maioria das linhagens de um gênero bacteriano muito comum em todo o mundo é, na verdade, endêmica dessas terras.

O estudo foi publicado recentemente na revista PNAS e apresenta evidências sólidas de que existem tipos de bactérias na Antártida que só podem ser encontrados ali. Isso muda as coisas: até então, conhecíamos apenas alguns poucos microrganismos endêmicos da Antártida, sempre restritos a ambientes específicos, como fontes hidrotermais.

Mas esse estudo vem demonstrar que o isolamento geográfico da Antártida também moldou uma biodiversidade invisível e exclusiva em seus solos.

O DNA

Para chegar a essa conclusão, a equipe não analisou toda a vida microscópica do continente, mas se concentrou exclusivamente no gênero Arthrobacter. E não é para menos, já que se trata de um grupo de bactérias extremamente disseminado nos solos de todo o planeta.

O aspecto interessante surgiu quando os pesquisadores começaram a comparar os metagenomas extraídos do solo e perceberam que, das 46 linhagens de Arthrobacter identificadas na Antártida, 42 delas (aproximadamente 91%) não apareceram em nenhuma das amostras coletadas no restante do mundo. Isso pode ser explicado justamente pela adaptação e pela evolução locais.

As análises genômicas indicaram que essas linhagens antárticas possuem características específicas que sugerem uma forte adaptação às condições extremamente severas de seu ambiente. Mas também derrubaram algumas teorias. Esperava-se, por exemplo, que essas bactérias apresentassem uma resistência excepcional à secura extrema, uma das maiores ameaças nos vales secos da Antártida, mas o genoma não revelou essa hiperadaptação.

Além disso, embora suas temperaturas ideais de crescimento sejam mais baixas do que a média de outras bactérias encontradas pelo mundo, elas ainda são surpreendentemente superiores às temperaturas reais que enfrentam diariamente no solo congelado.

Solo versus mar

É importante considerar o contexto dessa descoberta, pois, recentemente, também foi possível analisar bactérias marinhas associadas a invertebrados antárticos, e demonstrou-se que algumas linhagens conseguem crescer em temperaturas de até 35 °C. Isso é importante porque, enquanto as bactérias marinhas associadas a invertebrados demonstram uma adaptação térmica surpreendente em culturas de laboratório, as populações de Arthrobacter do solo apresentam uma exclusividade geográfica dessa região.

O próximo grande desafio para os microbiologistas será verificar se esse altíssimo nível de endemismo detectado em Arthrobacter é uma exceção ou se, pelo contrário, muitos outros grupos de microrganismos do solo antártico seguem exatamente o mesmo padrão de isolamento. Se isso for confirmado, a Antártida não será apenas um continente único por sua fauna visível, mas também o grande reservatório de uma biodiversidade microscópica que não existe em nenhum outro lugar da Terra.

Imagens | Francesco Ungaro (Pexels)

Texto traduzido e adaptado do portal parceiro Xataka Espanha.


Inicio