Assim como exercitamos os músculos na academia, a inteligência artificial pode virar uma ferramenta para treinar o cérebro e a memória

A IA pode resolver tarefas em segundos, mas também pode ajudar você a exercitar a memória e o raciocínio. O segredo está na maneira como você usa a tecnologia

Imagem produzida por IA de mulher pesquisando no computador
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

Redatora

Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Você provavelmente já ouviu que a inteligência artificial pode prejudicar o senso crítico, a criatividade e até a capacidade de resolver problemas. A preocupação faz sentido: basta enviar uma pergunta para uma ferramenta de IA para receber, em poucos segundos, uma resposta aparentemente pronta - e o risco está em deixar que ela faça todo o trabalho intelectual. 

Um estudo publicado em janeiro de 2025 na revista científica Societies, com 666 participantes, identificou uma associação entre o uso frequente dessas ferramentas e pontuações menores em pensamento crítico. Mas isso não significa que a tecnologia precise ficar de fora do processo de aprendizagem ou criatividade. Assim como os músculos precisam de estímulos para se desenvolver na academia, habilidades cognitivas também podem e devem ser exercitadas, e a inteligência artificial pode participar desse treino, desde que não substitua o esforço de pensar.

Quanto mais a IA pensa por você, menos você exercita o próprio cérebro 

A inteligência artificial já se tornou uma espécie de atalho para resolver problemas do dia a dia. Com poucos comandos, você consegue resumir textos, encontrar informações, organizar ideias e até tomar decisões que antes exigiam mais tempo e esforço. A praticidade é inegável, mas também desperta uma preocupação: até que ponto recorrer à tecnologia para pensar por nós pode afetar nossa capacidade de raciocinar, questionar e chegar às próprias conclusões?

Essa foi uma das questões investigadas por um estudo conduzido por Michael Gerlich, que analisou a relação entre a frequência de uso de ferramentas de inteligência artificial, a chamada descarga cognitiva e as habilidades de pensamento crítico. O último conceito diz respeito à prática de transferir determinadas tarefas mentais para recursos externos, ao invés de realizá-las por conta própria. É mais ou menos o que acontece quando usamos uma calculadora para fazer uma conta ou consultamos o GPS para encontrar um caminho.

Esse recurso não é necessariamente prejudicial. O grande problema é quando essa transferência também envolve atividades que exigem raciocínio, avaliação e tomada de decisão. Ao pedir que uma IA organize argumentos, compare informações ou resolva um problema sem participar dessas etapas, por exemplo, o usuário acaba deixando de exercitar habilidades importantes para construir o próprio raciocínio.

Na pesquisa, os participantes que relataram utilizar ferramentas de IA com mais frequência também apresentaram maior tendência à descarga cognitiva e pontuações menores em pensamento crítico. Os mais jovens demonstraram maior dependência dessas tecnologias e resultados inferiores nessa avaliação em comparação com os participantes mais velhos.

É importante, porém, não interpretar esses dados como prova de que a inteligência artificial causa uma perda de capacidade intelectual. O estudo identificou uma correlação entre os fatores analisados, e os próprios pesquisadores apontam limitações. Como parte das informações foi fornecida pelos próprios participantes, os resultados dependem da precisão com que eles relataram seus hábitos e comportamentos. Além disso, a composição da amostra pode não representar todos os perfis da população, o que significa que não dá para generalizar as conclusões. Essas restrições não invalidam a pesquisa, mas indicam que seus resultados devem ser interpretados com cuidado. 

Assim como na academia, o cérebro também precisa de estímulos

pessoa utilizando a IA para pesquisar Usar a inteligência artificial para encontrar respostas é fácil. O desafio é não deixar de fazer as próprias perguntas

A discussão sobre os efeitos da tecnologia não precisa terminar na ideia de que a IA faz mal. Para a fonoaudióloga Dra. Ingrid Gielow, presidente da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia e sócia-fundadora da ProBrain, a ferramenta também pode contribuir para a aprendizagem, desde que seja utilizada de maneira ativa e correta.

“A inteligência artificial pode ser uma grande aliada da aprendizagem, mas precisamos refletir sobre a maneira como a utilizamos. Existe uma diferença entre recorrer à tecnologia para obter uma resposta pronta e utilizá-la como ferramenta para aprender, testar hipóteses, resolver problemas e desenvolver habilidades. O desafio é aproveitar os benefícios da inovação sem abrir mão da nossa participação ativa no processo de pensar e aprender”, afirma Ingrid.

A academia ajuda a ilustrar muito bem essa diferença. Não é porque alguém frequenta uma academia ou a equipamentos de musculação que vai, necessariamente, fortalecer os músculos. Para isso, é preciso se exercitar adequadamente, respeitar os próprios objetivos e manter uma rotina adequada. Com as habilidades cognitivas, a lógica é semelhante. Aprender, prestar atenção, memorizar informações e resolver problemas são experiências que envolvem a participação ativa do cérebro. Isso não significa que qualquer jogo ou exercício vá melhorar a cognição de maneira geral. Os resultados dependem da atividade, da frequência, das características de cada pessoa e das habilidades que se pretende estimular. A fonoaudióloga também ressalta que o treinamento precisa ter um propósito definido.

“Quando falamos em treinar o cérebro, não estamos falando de uma fórmula mágica ou de uma promessa de desempenho extraordinário. Estamos falando da importância de manter uma relação ativa com a aprendizagem e de oferecer estímulos adequados às habilidades que queremos desenvolver. A tecnologia pode ajudar nesse processo, desde que tenha um propósito claro e seja utilizada de maneira consciente”, destaca a fonoaudióloga.

Um exemplo citado pela ProBrain é o Afinando o Cérebro, plataforma que reúne mais de 200 atividades em formato de jogos interativos voltados à estimulação de habilidades auditivas, como identificar diferenças entre sons e reconhecer padrões. A ferramenta mostra como recursos digitais podem ser usados para exercitar diferentes habilidades e estimular o desenvolvimento do usuário. 

Cinco maneiras de usar a IA para exercitar o cérebro

A inteligência artificial também pode funcionar como uma espécie de parceira de estudos. Uma maneira de aproveitar melhor esse recurso é pedir que ela crie situações em que você precise recuperar informações, formular hipóteses e avaliar diferentes possibilidades. Algumas ideias são: 

  1. Peça perguntas sobre um assunto que está estudando: tente responder sem consultar a ferramenta e só depois peça que ela corrija suas respostas e explique os erros;
  2. Transforme a IA em uma professora: peça uma explicação sobre determinado tema, mas solicite que ela apresente exercícios progressivos, sem revelar as soluções de imediato;
  3. Teste sua memória: depois de ler um texto ou assistir a uma aula, tente resumir o conteúdo com suas próprias palavras. Em seguida, peça à IA que compare seu resumo com os principais pontos do material;
  4. Questione as respostas: ao receber uma informação, peça fontes, procure possíveis inconsistências e tente encontrar outras explicações para o mesmo assunto. Não aceite uma resposta apenas porque ela parece convincente;
  5. Debata com a ferramenta: apresente uma opinião ou hipótese e peça que a IA desenvolva argumentos contrários. O exercício é avaliar os pontos apresentados, identificar falhas e construir uma conclusão própria.

A ideia é evitar que a praticidade elimine toda a participação humana. Como resume Ingrid, “Precisamos mudar a pergunta. Em vez de pensar apenas em como a tecnologia pode fazer mais coisas por nós, podemos refletir sobre como ela pode nos ajudar a aprender melhor e a desenvolver habilidades. O futuro não precisa ser uma disputa entre tecnologia e capacidade humana. O caminho é utilizar a inovação para ampliar possibilidades, valorizar a comunicação e apoiar o desenvolvimento das pessoas”.


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