Os EUA tiveram uma ideia há 20 anos para matar mosquitos; a China acaba de torná-la realidade com uma torre a laser automática para eliminá-los

O segredo: uma cadeia de suprimentos capaz de integrar sensores lidar, processamento local e inteligência artificial em dispositivos relativamente compactos

Os EUA tiveram uma ideia há 20 anos para matar mosquitos. A China acaba de torná-la realidade com uma torre a laser automática para eliminá-los.
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
fabricio-mainenti

Fabrício Mainenti

Redator

Há quase duas décadas, um grupo de engenheiros norte-americanos teve uma ideia que parecia saída da ficção científica: construir um sistema capaz de identificar mosquitos em pleno voo e abatê-los com disparos de laser. O projeto chegou a funcionar, mas nunca se tornou um produto de consumo. Agora, na China, retomaram esse conceito, adicionaram inteligência artificial e estão tentando levá-lo ao mercado por cerca de 1.000 dólares (aproximadamente R$ 5.477).

O resultado parece um sistema de defesa antiaérea em miniatura.

A ideia nasceu nos Estados Unidos

Em 2006, Nathan Myhrvold, ex-diretor de tecnologia da Microsoft e fundador da Intellectual Ventures, fez uma pergunta inusitada a um grupo de engenheiros: seria possível matar mosquitos com um laser? A proposta surgiu de conversas sobre como combater a malária, uma doença transmitida por mosquitos que continuava causando centenas de milhares de mortes por ano.

Entre os especialistas envolvidos estava Lowell Wood, um físico que havia trabalhado em projetos relacionados à defesa estratégica norte-americana durante a Guerra Fria. Sua resposta foi projetar uma espécie de barreira invisível capaz de detectar insetos, distingui-los de outros animais e disparar contra eles automaticamente. Batizaram-na de Photonic Fence (cerca fotônica) e, em 2009, a Intellectual Ventures já havia construído protótipos funcionais.

Uma Estrela da Morte contra os mosquitos

Em fevereiro de 2010, Myhrvold apresentou a tecnologia publicamente durante uma conferência TED, na Califórnia. O sistema utilizava sensores ópticos e câmeras para localizar mosquitos, acompanhar seus movimentos e direcionar um laser para eles, sendo capaz de distinguir insetos por características como seu tamanho e o bater de suas asas.

A demonstração incluía a detecção em tempo real, utilizando um laser inofensivo, além de vídeos de insetos abatidos por disparos reais.

A comparação com a Estrela da Morte, de Star Wars, foi inevitável; veículos como a TIME e a Wired incluíram a invenção entre as inovações de destaque daquele ano. No entanto, transformar o protótipo em uma solução acessível, segura e fácil de implementar mostrou-se muito mais complicado. A tecnologia continuou a ser desenvolvida, mas aquela arma promissora contra a malária nunca chegou a ser fabricada em massa para os consumidores.

A China retoma o projeto

Dezesseis anos após aquela demonstração, a empresa Photon Matrix Lab, sediada em Changzhou, na província chinesa de Jiangsu, desenvolveu seu próprio sistema de defesa contra mosquitos. Seu dispositivo, chamado Laser Mosquito Air Defense System, tem aproximadamente o tamanho de um tijolo e combina sensores a laser, câmeras e inteligência artificial para localizar pequenos objetos voadores e neutralizá-los.

A empresa oferece duas versões: uma com laser infravermelho invisível, destinada principalmente a ambientes internos, por 988 dólares, e outra com laser azul visível, voltada para uso em ambientes externos, por 1.088 dólares. Ambas prometem um desempenho semelhante.

A diferença em relação ao projeto norte-americano não está na descoberta de que um laser pode abater mosquitos, mas sim na tentativa de integrar todos os componentes em um aparelho compacto, viável para fabricação e destinado ao mercado doméstico.

Cem mil pulsos por segundo

O funcionamento lembra o de um pequeno sistema antiaéreo automatizado. O dispositivo utiliza tecnologia lidar — comum em veículos autônomos — para emitir aproximadamente 100.000 pulsos de laser de baixa potência por segundo, monitorando um plano bidimensional situado à frente do equipamento.

Ao detectar um pequeno objeto voador, ele calcula sua trajetória e aciona um laser de maior potência para interceptá-lo. Cada disparo dura cerca de um centésimo de segundo e tem como objetivo queimar as asas do mosquito, impedindo-o de continuar voando.

Durante uma demonstração acompanhada pelo The New York Times, o aparelho abateu vários insetos em sequência; eles caíram no chão com o corpo aparentemente intacto, mas sem condições de levantar voo. Não morreram necessariamente de imediato; na verdade, segundo o fundador da empresa, Wang Chuan, alguns podem sobreviver por horas ou até dias após perderem as asas.

O verdadeiro problema não são os mosquitos

Para obter uma eficácia suficiente, a Photon Matrix descartou os lasers de classe 3 e optou por um de classe 4, a categoria de maior periculosidade. Os motivos? Esses dispositivos podem causar lesões oculares graves com uma exposição extremamente breve; por isso, a segurança tornou-se o principal obstáculo comercial.

A empresa afirma ter incorporado câmeras com inteligência artificial para reconhecer pessoas e animais de estimação, sistemas de detecção de superfícies reflexivas e sensores adicionais capazes de identificar movimentos, mesmo na escuridão total.

Além disso, é necessário responder a um questionário de segurança com 15 perguntas antes de permitir o registro de uma impressão digital para ativar o aparelho. Dito isso, todas essas medidas dependem do funcionamento correto dos sistemas, já que um disparo acidental ou um reflexo inesperado poderia ter consequências graves.

Segundo o Times, a empresa está buscando as devidas autorizações na China, na Europa e nos Estados Unidos, embora ainda não tenha demonstrado publicamente que seu produto seja seguro em todas as condições de uso doméstico.

De um experimento a um negócio milionário

A recepção comercial superou, e muito, as expectativas iniciais. A Photon Matrix Lab lançou uma campanha no Indiegogo com o objetivo de arrecadar 20 mil dólares (cerca de R$ 109.544) e acabou superando a marca de 2,8 milhões (cerca de R$ 15,3 milhões), impulsionada por vídeos que viralizaram nas redes sociais. A empresa afirma ter recebido mais de 5 mil pedidos, principalmente da Europa e da América do Norte, e anunciou uma capacidade inicial prevista de 3 mil a 5 mil unidades por mês.

No entanto, como relatado pelo Times, a transição do laboratório para a fábrica tem se mostrado um pouco mais complexa. Wang Chuan reconheceu que, inicialmente, planejavam desenvolver o produto em três meses, mas acabaram levando três anos. A empresa esperava iniciar a produção em massa em julho de 2026; depois, adiou suas previsões e, no final de setembro, admitiu que ainda estava realizando testes de pré-produção.

Em outras palavras, embora tenha anunciado as primeiras entregas para outubro, o volume de pedidos e a arrecadação não significam que milhares de dispositivos já tenham sido entregues e estejam em funcionamento nas residências.

O paradoxo de uma guerra em miniatura

De certa forma, a história resume uma transformação tecnológica que vai muito além dos mosquitos. Há quase duas décadas, os Estados Unidos demonstraram que era possível localizar insetos e eliminá-los com disparos de laser, mas não conseguiram transformar essa tecnologia em um produto doméstico fabricado em larga escala.

A China pretende dar esse passo final, aproveitando uma cadeia de suprimentos capaz de integrar sensores LiDAR, processamento local e inteligência artificial em dispositivos relativamente compactos.

Isso não significa que o conceito tenha sido inventado por eles, nem que a batalha tenha sido definitivamente vencida; ainda é preciso comprovar a segurança, a confiabilidade, a viabilidade das entregas comerciais e a eficácia fora de ambientes controlados. Além disso, o objetivo não é exterminar os mosquitos do planeta, mas sim controlar sua presença em locais específicos.

Entre uma coisa e outra, há uma imagem que resume o salto: uma tecnologia que nasceu com o objetivo de combater a malária por meio de barreiras a laser pode acabar instalada em jardins e terraços, transformada em uma torre automática que dispara contra esses pequenos vampiros.

Imagem de capa | Xataka

Texto traduzido e adaptado do portal Xataka Espanha

Inicio