No fim do ano passado, em novembro de 2025, a Nucleus Genomics, uma startup americana de biotecnologia que oferece testes de sequenciamento de genoma completo para análise de saúde, entrou no centro de uma polêmica em Nova York ao anunciar um serviço que permite classificar embriões antes da implantação no útero, prática que tradicionalmente tem como objetivo a prevenção de doenças genéticas, mas que, nesse caso, vai além e inclui a previsão de traços físicos, inteligência e até comportamento.
Embora o anúncio tenha gerado forte repercussão, ele não é um caso isolado. A iniciativa faz parte de um movimento mais amplo: a comercialização de testes genéticos pré-implantacionais por empresas de reprodução assistida nos Estados Unidos. Essa prática combina fertilização in vitro, análise genética avançada e algoritmos de risco, e levanta questionamentos científicos, legais e éticos sobre até onde a reprodução assistida deveria ir.
Teste genético pré-implantacional: entenda como os cientistas conseguem “prever” traços
Tudo começa na fertilização in vitro (FIV), procedimento no qual embriões são gerados em laboratório. Antes da implantação no útero, algumas células desses embriões são analisadas por meio do chamado teste genético pré-implantacional(PGT). Tradicionalmente, esse exame é usado para identificar doenças genéticas graves, como fibrose cística, anemia falciforme ou alterações cromossômicas que aumentam o risco de aborto espontâneo.
Nos últimos anos, porém, empresas como Nucleus Genomics, Genomic Prediction , Orchid Health e Herasigh, todas nos Estados Unidos, passaram a oferecer uma versão mais ampla desse rastreio: a triagem poligênica de embriões, também chamada de PGT-P ou PES. Nesse modelo, os embriões recebem “pontuações” baseadas em milhares de variantes genéticas, indicando probabilidades futuras de desenvolver doenças comuns, como diabetes, Alzheimer e doenças cardíacas, mas também características não médicas, como altura, QI e índice de massa corporal.
Com base nesses relatórios, os pais escolhem qual embrião implantar e quais descartar. Nos Estados Unidos, a prática ocorre em um ambiente de regulação “solta”, sem uma lei federal que proíba explicitamente a seleção genética para fins não médicos, o que explica por que esse mercado cresce mais rápido no país do que em outras regiões.
Especialistas em genética expõem falhas em testes genéticos
Embora a tecnologia seja vendida como um avanço da medicina reprodutiva, a ciência impõe alguns limites. Um estudo publicado no Journal of Clinical Medicine explica que a triagem poligênica se baseia em escores de risco poligênico (PRS), calculados a partir de estudos genômicos de larga escala (GWAS). Esses escores não determinam resultados, apenas estimam probabilidades.
Segundo a revisão científica, o uso do PGT-P pode até reduzir o risco relativo de algumas doenças quando comparado entre embriões do mesmo casal, mas os ganhos são modestos e incertos, especialmente para características complexas como inteligência, comportamento e transtornos psiquiátricos. Além disso, a maioria dos dados genéticos usados nesses modelos vem de populações europeias, o que reduz a precisão para outros grupos étnicos.
Outro ponto destacado pelos pesquisadores é que o PRS não considera fatores ambientais, como alimentação, acesso à saúde, educação e estilo de vida, que têm impacto decisivo no desenvolvimento humano. Por isso, sociedades científicas como a Sociedade Europeia de Genética Humana (ESHG) e a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) alertam que o PGT-P ainda é experimental e não possui validação clínica forte para uso geral.
Eugenia, desigualdade e os limites éticos da triagem poligênica de embriões
A possibilidade de classificar embriões com base em traços genéticos para além da prevenção de doenças traz de volta um debate antigo, que ainda divide cientistas e bioeticistas sobre até onde a tecnologia pode interferir na reprodução humana sem ultrapassar limites éticos perigosos. Embora as empresas envolvidas evitem o termo, especialistas apontam que a lógica por trás da triagem poligênica se aproxima de princípios eugenistas, ao atribuir maior “valor” a determinados perfis genéticos em detrimento de outros.
Diferentemente da eugenia praticada no século 20 por Estados autoritários, , como a Alemanha nazista, onde o controle reprodutivo fazia parte de uma política oficial de extermínio e “purificação” racial, o cenário atual é marcado por escolhas individuais mediadas pelo mercado. Ainda assim, o resultado pode ser semelhante, com a normalização da ideia de que certos corpos, capacidades cognitivas ou comportamentos são desejáveis, enquanto outros devem ser evitados. Na prática, isso transforma características humanas complexas em métricas, reduzindo a diversidade a probabilidades estatísticas.
Outro ponto central do debate é a desigualdade. Esses testes têm custos elevados e, ao menos por enquanto, estão acessíveis apenas a uma parcela muito específica da população. Isso levanta o risco de aprofundar disparidades sociais, criando um futuro em que vantagens genéticas, ainda que incertas, sejam concentradas entre quem pode pagar por elas.
Na prática, esses testes colocam a biotecnologia diante de um dilema: até onde é aceitável usar dados genéticos para decidir quais embriões terão chance de nascer, sem transformar a reprodução humana em um processo de seleção desigual.
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