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Por que o filósofo Sêneca estava completamente errado quando disse: "a raiva é a mais sombria das paixões, uma breve loucura"?

A ciência demonstrou que, em certos contextos, canalizar a raiva pode ser benéfico

Imagens | Mick Haupt (Unsplash), Wikipedia
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PH Mota

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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Sêneca não gostava de pessoas irritadas. Quase todos nós concordamos com ele nesse ponto. O filósofo hispânico, no entanto, estava tão indignado com as pessoas raivosas (a ironia não falta) que, há cerca de vinte séculos, dedicou-lhes um tratado inteiro ("Sobre a Ira"), obra na qual reflete sobre o que é a raiva, suas causas, efeitos, natureza, se é ou não controlável e como devemos agir quando sentimos que estamos começando a hiperventilar e todo tipo de palavrão nos invade a garganta.

O problema é que Sêneca não estava totalmente certo.

"Sombria e desenfreada"

A obra de Sêneca não deixa muito espaço para interpretações. Intitulada "Sobre a Ira", ao longo de seus três volumes, o autor se dedica a nos falar sobre o que é a raiva, de onde ela vem e, sobretudo, como agir diante dela. Suas palavras se conectam com a melhor tradição estoica ao nos aconselhar a fugir da escravidão dos impulsos e a adotar uma atitude serena e reflexiva.

"Você me pediu, caro noviço, que eu lhe escrevesse sobre como controlar a raiva. E creio que, não sem razão, você teme principalmente esta paixão, que é a mais sombria e desenfreada de todas", começa Sêneca no primeiro capítulo de seu tratado, dirigido a seu irmão. "As outras, sem dúvida, têm algo de calmo e plácido, mas esta é pura agitação, obstinação no ressentimento, sede de guerra, de sangue, de torturas, explosão de fúria sobre-humana."

Raiva

Uma forma de loucura?

Ao longo das páginas seguintes ele se aprofunda na explicação da insensatez da raiva. O motivo? Ela nos leva a nos esquecermos de nós mesmos para prejudicar os outros, "nos lançando no meio das espadas". "Por essa razão, alguns sábios definiram a raiva como 'breve loucura'." Impotente para se controlar, ela esquece toda conveniência, ignora todo afeto, é obstinada e teimosa, surda aos conselhos da razão, agitada por causas vãs”, continua o autor.

A obra está repleta de reflexões que seguem a mesma linha, mas há uma passagem particularmente eloquente em que Sêneca nos alerta sobre o quanto a raiva pode nos afastar de nossos propósitos, até mesmo de quem somos:

“O homem nasce para ajudar o homem; a raiva, para a destruição comum. O homem busca a sociedade, a raiva busca o isolamento; o homem quer ser útil, a raiva quer prejudicar; o homem ajuda estranhos, a raiva fere até o amigo mais íntimo; o homem está disposto a se sacrificar pelos interesses alheios, a raiva se lança no perigo para arrastar alguém consigo.”

Faz sentido, não é?

Mais ou menos. A raiva pode condicionar nosso comportamento, fazendo-nos agir de maneira diferente da que agiríamos se estivéssemos calmos, mas... isso é necessariamente ruim? A raiva é sempre “a mais sombria” das paixões, como diz Sêneca? No século XXI, há autores que não pensam assim. Um deles é David Robson, um divulgador que publicou "A Armadilha da Inteligência", entre outros ensaios psicológicos.

Em julho de 2020, em meio à pandemia, com milhares de pessoas lidando com a impotência e a frustração de não poderem se movimentar livremente, Robson publicou um artigo na BBC no qual falava justamente sobre isso: o lado positivo de sentir raiva.

Seu título também é autoexplicativo: "Os Benefícios da Raiva: O Lado Bom de Agir Irritado". Além do tom provocativo, o ensaio de Robson é interessante porque resume pesquisas científicas recentes que sugerem que agir inspirado pela raiva pode não ser tão ruim quanto Sêneca acreditava.

Uma fonte de energia

O que Robson defende é que, além do seu poder destrutivo (algo que ele não nega), a raiva pode ter certas vantagens. "A raiva e emoções relacionadas, como frustração ou irritação, também podem trazer vantagens, desde que saibamos canalizar a energia que delas surge." A premissa é muito simples: em vez de investir energia e tempo em suprimir a raiva, por que não tentar canalizar esse sentimento, tirar proveito dele, usá-lo como fonte de motivação? Pode parecer rebuscado ou autodestrutivo, mas o autor cita estudos que reforçam essa ideia: como a turbulência (bem administrada e canalizada) pode nos ajudar em certos contextos.

Mais raiva, melhor desempenho?

A abordagem de Robson não está muito distante da de Brett Q. Ford, professora da Universidade de Toronto, que define a raiva como "uma emoção mobilizadora que é fisiologicamente ativada", gerando um impulso que pode ser usado para certos objetivos físicos.

Não se trata de falar por falar. Anos atrás, um grupo de cientistas descobriu que, ao imaginarem cenas irritantes, os participantes do experimento realizavam certas tarefas físicas com mais intensidade e rapidez. O desempenho deles parecia aumentar quando estavam frustrados, canalizando essa frustração por meio da atividade física.

Robson cita outros estudos que mostram efeitos semelhantes em atletas que arremessam bolas e saltam, ou mesmo entre jogadores da NBA e da Liga Nacional de Hóquei. Quando sofriam faltas flagrantes e frustrantes, os jogadores pareciam ficar mais motivados a marcar pontos. "Quanto mais irritados eles se sentiam, mais rápido arremessavam ou mais alto saltavam."

Interessante, mas com limitações.

Claro que há nuances. Um estudo publicado em 2011 sobre "raiva, agressão e atletismo" descobriu que "um maior número de faltas técnicas" geralmente precede um maior "sucesso em aspectos do jogo que exigem força e energia, como arremessos de longa distância, rebotes e bloqueios", mas essa relação está longe de ser infalível.

Arremessos de bola exigem movimentos mecânicos, resultado de repetição e treinamento. As coisas mudam quando falamos de aspectos do mesmo esporte que exigem outras habilidades, como "precisão".

Uma boa dose de raiva não traz vantagens apenas em campo. Robson cita outro estudo que sugere que a raiva pode melhorar nossa "persistência e perseverança diante de desafios cognitivos".

Como se chegou a essa conclusão? Os cientistas frustraram um grupo de pessoas aplicando testes que, em teoria, avaliavam sua inteligência, mas que na prática eram impossíveis de resolver. Quem foram os mais perseverantes, aqueles que se dedicaram mais ao desafio?

Os que reagiram com raiva foram, de certa forma, mais persistentes do que aqueles que simplesmente se frustraram ou se deprimiram. A essa vantagem, Robson acrescenta outra: "Um acesso de raiva também pode provocar maior criatividade", já que, quando nos sentimos mais estimulados, nossa mente estabelece novas conexões.

Nem tudo são flores

"Por muito tempo, acreditou-se que ser positivo o tempo todo era sinônimo de uma vida plena, que era a isso que deveríamos aspirar", relembra Heather C. Lench, professora da Universidade Texas A&M, ao The New York Times. "Mas há cada vez mais evidências de que uma vida equilibrada por uma soma de emoções parece ser mais gratificante a longo prazo."

A conclusão se baseia em estudos acadêmicos publicados no Journal of Personality and Social Psychology, que concordam que a raiva pode nos ajudar a sermos mais rápidos e reativos, a superar obstáculos. A raiva pode ser um empecilho em certos casos, mas não mais do que o falso positivismo.

Então, serve para todos?

Não é bem assim. Os estudos citados por Robson não são um apelo à fúria desenfreada. Em vez disso, oferecem uma visão alternativa à narrativa dominante que, em consonância com Sêneca, nega todas as implicações da raiva. Para tirar proveito disso, no entanto, é importante ter em mente uma máxima que os estoicos também apreciavam: moderação.

Na verdade, a própria professora Ford sugere as vantagens de canalizar a raiva para fins construtivos quando precisamos confrontar opiniões. A raiva pode ser uma alavanca, mas também, como alertou Sêneca, pode nos colocar entre a cruz e a espada.

Tudo está nos clássicos

A postura ideal é resumida por David Lebel, da Universidade de Pittsburgh, na BBC: "Reconheça sua raiva, espere algumas horas ou um dia e pense em como você pode extravasá-la de forma construtiva". Na realidade, essa não é uma posição nova ou revolucionária. Algo semelhante foi dito por outro pensador clássico que precedeu Sêneca no Olimpo dos filósofos: Aristóteles.

O discípulo de Platão já reconhecia algo de bom na raiva e aconselhava a lidar com ela de maneira apropriada: "Ficar com raiva da pessoa certa, na hora certa e pelo motivo certo não é fácil". Em "Sobre a Ira", o próprio Sêneca lembra que Aristóteles assegura que a raiva "é necessária" em certos contextos, embora o pensador hispânico não parecesse muito convencido dessa ideia. "Se você der ouvidos à razão e se deixar guiar por ela, a raiva deixará de existir", respondeu ele.

Imagens | Mick Haupt (Unsplash), Wikipedia e Andre Hunter (Unsplash)

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