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Dois tremores e 12 segundos: os EUA estavam convencidos de que a China estava realizando testes de armas nucleares, e agora têm provas

O debate sobre os testes clandestinos revela um sistema internacional cada vez mais frágil

Dois tremores e 12 segundos: os EUA estavam convencidos de que a China estava realizando testes de armas nucleares, e agora têm provas.
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Fabrício Mainenti

Redator

Washington e Moscou mantinham uma regra não escrita que agora foi quebrada: se um teste fosse realizado, o mundo precisava saber. Por décadas, o equilíbrio estratégico global se baseou em acordos frágeis, desconfiança mútua e linhas vermelhas que ninguém queria cruzar abertamente. Quando essas fronteiras começaram a se confundir, até mesmo o menor indício poderia perturbar a estabilidade que parecia garantida. Assim começam as acusações nucleares.

Um tremor reabre o espectro

Contamos a história na semana passada, mas agora, à primeira vista, há mais dados para corroborar a retórica de Washington. Os Estados Unidos reforçaram sua acusação de que a China realizou um teste nuclear subterrâneo de baixa potência em 22 de junho de 2020, perto de Lop Nur, em Xinjiang, com base em dados sísmicos detectados por uma estação no Cazaquistão que registrou um evento de magnitude aproximada de 2,75.

Washington mantém o que considera evidente: que o sinal não pode ser consistente com um terremoto ou explosões em minas, e que Pequim empregou técnicas de "desacoplamento" para atenuar o sinal sísmico e dificultar a detecção, embora admita que não pode determinar com precisão a potência da suposta detonação.

O tratado não vinculativo

O pano de fundo para tudo isso é o Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares de 1996, que proíbe explosões nucleares, mas nunca entrou em vigor integralmente devido à falta de ratificações, apesar das alegações das grandes potências de respeitarem seu espírito inicial.

Por sua vez, o órgão internacional de monitoramento detectou dois pequenos eventos sísmicos separados por 12 segundos na data em questão, mas também reconheceu que eles eram muito fracos para serem atribuídos com absoluta certeza a uma explosão nuclear, deixando a disputa em um âmbito técnico onde as evidências públicas são, na melhor das hipóteses, ambíguas.

Pressão estratégica sem o New START

A acusação surge após o vencimento do último tratado que limitava os arsenais estratégicos dos Estados Unidos e da Rússia, e num momento em que o governo Trump busca aprovar um novo acordo que também inclua a China.

Dessa perspectiva, detalhar publicamente o suposto teste poderia servir como moeda de troca diplomática para forçar Pequim à mesa de negociações. Ao mesmo tempo, permite que Washington abra outro cenário, talvez mais perturbador: o de alertar que não ficará de braços cruzados diante do que classificou como uma “desvantagem intolerável” caso outros países realizem testes de baixo rendimento enquanto os Estados Unidos mantêm sua moratória, em vigor desde 1992.

Em outras palavras, independentemente de ter sido ou não um teste nuclear de fato, as grandes potências parecem estar se posicionando agora que não há acordos em vigor.

O debate sobre apertar o botão

De fato, Trump insinuou que os Estados Unidos poderiam retomar os testes “em igualdade de condições” se a China e a Rússia também estiverem realizando testes, uma possibilidade que preocupa especialistas em controle de armas, que temem quebrar o tabu pós-Guerra Fria e desencadear uma nova corrida armamentista.

A discussão, portanto, não é apenas técnica, mas também política: se Washington responder com suas próprias detonações, poderá legitimar outras potências a fazerem o mesmo, corroendo décadas de contenção informal.

Um equilíbrio nuclear em transformação

Embora o arsenal chinês (estimado em cerca de 600 ogivas) permaneça menor que os da Rússia e dos Estados Unidos, sua rápida expansão preocupa Washington, que interpreta qualquer teste de baixo rendimento como parte de uma estratégia para modernizar e aprimorar sua força nuclear.

Pequim nega ter ultrapassado os limites e afirma que respeita sua moratória. Enquanto isso, o debate sobre testes clandestinos revela um sistema internacional cada vez mais frágil, onde a desconfiança e a opacidade tecnológica pesam quase tanto quanto as próprias armas.

Imagem | Planet Labs, Google Earth

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