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Achávamos que a IA roubaria nossos empregos, até descobrirmos que ela já roubou os relacionamentos de 70% dos jovens americanos

Adolescentes transformam chatbots em amigos e confidentes, enquanto pesquisadores questionam os impactos emocionais e os incentivos econômicos por trás dessas relações

Menina conversando com inteligência artificial. Créditos: shutterstock
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

Redatora

Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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A Geração Z tem uma relação com a tecnologia diferente de qualquer outra anterior. São nativos digitais, isto é, cresceram cercados por smartphones, redes sociais e internet. Contudo, agora existe um novo elemento entrou nessa equação: a inteligência artificial. Uma pesquisa da Common Sense Media, divulgada em 2024, aponta que cerca de 70% dos adolescentes americanos já utilizam IA generativa, mas, em muitos casos, não é apenas para pesquisas.

Esses jovens conversam com chatbots como se fossem amigos, confidentes e até namorados. Criam rotinas de interação, compartilham sentimentos, pedem conselhos e buscam validação emocional. Como devolutiva, a IA responde de forma constante, personalizada e sempre disponível, sem atrasos, sem julgamentos e sem conflitos. O que acaba se estabelecendo ali é uma dinâmica de conforto, em que o algoritmo se adapta ao usuário e molda a conversa para manter o vínculo ativo.

O “relacionamento perfeito” entre jovens e a inteligência artificial

O ponto mais delicado dessa dinâmica é que a inteligência artificial cria uma experiência impossível no mundo real. Diferentemente de um amigo, parceiro ou familiar, o chatbot não impõe limites, não se cansa, não exige reciprocidade e dificilmente confronta. Ele espelha, valida e se adapta ao usuário. Essa complacência permanente pode parecer acolhedora, mas como consequência, elimina elementos centrais das relações humanas, como frustração, negociação e responsabilidade afetiva.

Especialistas da American Psychological Association, alertam que a adolescência é justamente o período em que o cérebro está mais sensível à aprovação social e em que se desenvolvem habilidades como empatia, resolução de conflitos e tolerância à frustração. Relações reais envolvem expectativas, conversas difíceis, desencontros e reparações. São essas tensões que constroem intimidade verdadeira.

Quando a referência passa a ser um sistema programado para agradar e manter o engajamento, o contraste é gritante. É por isso que muitos jovens enxergam interações humanas como cansativas, dramáticas ou excessivamente exigentes. A convivência real demanda tempo, paciência e disposição para lidar com divergências, algo que a IA tende a evitar.

Há ainda uma outra questão tão problemática quanto essa: muitos chatbots são criados para manter o usuário conversando pelo maior tempo possível para conseguir mais interação, mais dados e mais engajamento. Por isso, a postura sempre compreensiva e validante da IA nem sempre é empatia de verdade, mas uma estratégia para que a pessoa não vá embora

No caso dos adolescentes, isso pode ter impacto maior ainda. De acordo com uma pesquisa  publicada no Journal of the Human Development and Capabilities, nessa fase da vida, o cérebro ainda está desenvolvendo autocontrole, senso crítico e tolerância à frustração. Se o principal vínculo emocional acontece com uma tecnologia que nunca discorda e nunca impõe limites, pode ficar mais difícil lidar com relações reais.

A IA é programada para manter você conversando — mesmo quando isso não é o melhor para você

Além da ausência de conflito, os incentivos econômicos que orientam o funcionamento dos chatbots também ajudam a moldar essa dinâmica de relacionamento com as IA’s. A investigação da Common Sense Media mostrou que bastam pequenos estímulos para que assistentes virtuais iniciem ou mantenham conversas problemáticas com usuários que se apresentam como adolescentes. Em alguns testes, os bots deixaram de intervir diante de sinais de sofrimento emocional, mas em certos casos, chegaram a reforçar comportamentos de risco.

Isso não acontece por acaso. O funcionamento dessas plataformas está diretamente ligado ao tempo de uso. Quanto mais longa a conversa, maior a coleta de dados,  e quanto maior o engajamento, maior a retenção do usuário. Nesse contexto, a validação constante das IAS funcionam, na verdade,  como uma estratégia de permanência.

Como consequência, cria-se um ambiente em que o vínculo é incentivado, mas o cuidado não necessariamente é prioridade. A discussão, portanto, não é se os jovens devem ou não usar IA, mas quais limites e responsabilidades as empresas precisam assumir quando seus produtos passam a ocupar um espaço perigoso das relações humanas.

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