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Holanda acaba de provocar pânico em aliados dos EUA: F-35 pode ser "liberado" como um iPhone

Em última análise, falar em "desbloqueio" é falar em desconfiança

Imagem | Robert Sullivan
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PH Mota

Redator
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Desde a Guerra Fria, os Estados Unidos não apenas exportaram armas, mas também formas de controle sobre como, quando e para que elas são usadas. Durante décadas, essa supervisão foi exercida por meio de licenciamento, manutenção e fornecimento de peças. Hoje, na era da guerra cibernética e de software, essa lógica mudou de escala: o controle não está mais restrito ao hangar ou ao contrato, mas sim incorporado ao próprio sistema.

Com o F-35, pela primeira vez, essa antiga questão deixou de ser teórica.

A controvérsia

Como afirmou o ministro da Defesa holandês, o "cérebro computacional" do F-35, incluindo seus componentes em nuvem, pode ser hackeado para aceitar atualizações de software de terceiros, assim como se faz o jailbreak de um iPhone.

"Se, apesar de tudo, eles ainda quiserem atualizar, vou dizer algo que nunca deveria dizer, mas vou dizer mesmo assim: é possível fazer o jailbreak de um F-35 da mesma forma que se faz o jailbreak de um iPhone", disse Gijs Tuinman durante um episódio do podcast "Boekestijn en de Wijk" da BNR Nieuwsradio.

Um caça e muito mais

A declaração do ministro da Defesa holandês de que o F-35 pode ser "desbloqueado" como uma aeronave móvel revela não só um segredo técnico, mas um desconforto estratégico que vem se acumulando entre os aliados há anos. A aeronave não é apenas uma plataforma aérea, mas um sistema profundamente integrado a uma arquitetura digital, logística e doutrinária projetada nos Estados Unidos, onde software, dados de missão, manutenção e fornecimento de peças de reposição formam um todo inseparável.

Nesse contexto, falar em desbloqueio não descreve uma solução real, mas a expressão de um limite: o reconhecimento de que a soberania operacional sobre o F-35 é condicionada por projeto e que qualquer tentativa de romper essa dependência é, em si, um sinal de crise política, e não uma opção técnica viável.

Por que "desbloquear" um F-35 é motivo de temor

Se aceitarmos que o software dos caças pode falhar, assumimos que o controle dos EUA sobre o sistema não é apenas contratual, mas estrutural, e que sua manutenção depende da confiança política entre os aliados.

O F-35 opera conectado a redes como o ALIS e seu sucessor, o ODIN, que não apenas atualizam a aeronave, mas também carregam os pacotes de dados da missão que tornam possível sua sobrevivência em combate: rotas calculadas, áreas de defesa inimigas, fusão de sensores e táticas compartilhadas. "Liberar" o avião significaria cortar essa artéria central, mas também perder aquilo que o torna uma ferramenta decisiva.

O dilema

Para Washington, a mera possibilidade de um aliado operar o sistema fora desse ecossistema representa riscos de segurança tecnológica e de uso não alinhados aos seus interesses.

Por sua vez, para os aliados, o dilema é ainda mais incômodo: ou aceitam a dependência permanente, ou correm o risco de ficar com um caça tecnicamente avançado, mas operacionalmente amputado, sem dados, sem suporte e sem futuro.

Membro da Força Aérea dos EUA usa laptop para revisar dados de manutenção do sistema ALIS Membro da Força Aérea dos EUA usa laptop para revisar dados de manutenção do sistema ALIS

Exceção israelense

Israel é a anomalia que confirma a regra. É o único operador que negociou a integração de software proprietário, opera em grande parte fora do ALIS/ODIN e mantém seus F-35 com autonomia industrial. Essa exceção não é replicável para os demais, pois responde a uma relação estratégica única, construída ao longo de décadas e baseada em um nível de confiança e alinhamento que não existe com outros parceiros.

Para países europeus como a Holanda, qualquer "desbloqueio" real implicaria não apenas enormes capacidades técnicas, mas também um confronto direto com o fabricante e o governo dos EUA, com consequências imediatas em peças de reposição, manutenção e suporte logístico. O resultado seria paradoxal: um F-35 desbloqueado que acabaria rapidamente imobilizado, não por uma trava digital, mas pela asfixia de sua cadeia de suporte.

O mito do botão

É aqui que, indiretamente, a controvérsia acaba por comprovar o ceticismo histórico da Espanha em relação ao famoso "botão" de desligar. Não é preciso um interruptor secreto ou um dispositivo de segurança oculto para neutralizar um F-35 nas mãos de um aliado com quem as relações estão rompidas.

O controle não reside num comando remoto, mas na dependência diária de software validado, dados de missão, manutenção certificada e peças críticas. A Espanha sempre sustentou que o problema não era um botão mágico, mas algo mais profundo e menos visível: a arquitetura da dependência. As declarações holandesas reforçam essa ideia, porque implicitamente admite que, embora a aeronave possa continuar voando, seu valor militar real se degrada rapidamente se ela for desconectada do ecossistema que a alimenta.

Sintoma de uma relação tensa

Em última análise, falar em "desbloqueio" é falar diretamente de desconfiança. Até onde se sabe, nenhum país está considerando seriamente desbloquear um F-35 enquanto a relação com Washington funcionar, porque o sistema foi projetado para operar em rede, não isoladamente.

Mas o fato de esse debate estar ressurgindo agora não parece trivial e reflete um contexto geopolítico mais severo, com aliados começando a se perguntar o que acontecerá se a proteção política ruir. O F-35 continua sendo, como até mesmo seus críticos reconhecem, um caça extraordinário em seu estado atual. Mas também é a prova de que a superioridade tecnológica moderna não é adquirida apenas pela aeronave, mas por uma aceitação tácita da dependência estratégica. E quando essa dependência começa a incomodar, o problema deixa de ser (apenas) técnico: torna-se político.

Imagem | Robert Sullivan, Força Aérea dos EUA

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