A ciência funciona assim. Um dia, um membro de um instituto está analisando câmeras de armadilhagem fotográfica e, no dia seguinte, essa equipe de pesquisa está reescrevendo muitas das coisas que acreditávamos saber sobre os carnívoros terrestres.
E tudo por causa de um punhado de mães cuidando de seus filhotes.
Uma equipe liderada pelo IREC (Instituto de Pesquisa Sobre Recursos de Caça), da Espanha, usou câmeras de armadilhagem para documentar pela primeira vez como fêmeas de lince-ibérico mergulham deliberadamente coelhos recém-caçados em reservatórios de água antes de entregá-los aos seus filhotes.
Pode parecer uma curiosidade, mas estamos falando do primeiro caso conhecido (oito eventos distintos) de manipulação deliberada de presas com água (em cinco reservatórios diferentes) por felinos selvagens. Um comportamento cognitivo complexo que não acreditávamos ser possível.
Não se trata apenas de um simples mergulho da comida na água: os linces mantêm a imersão por mais de 60 segundos sem soltar a presa e fazem isso, claro, completamente de propósito.
Por que fazem isso? A verdade é que não se sabe. Os pesquisadores apontam que as fêmeas podem estar usando os coelhos como veículo de água para seus filhotes em períodos especialmente quentes. É preciso considerar, além disso, que os filhotes estão recém-desmamados nessa época do ano.
A importância da descoberta
Até agora, tínhamos encontrado muitos casos de animais que lavavam seus alimentos na água (macacos japoneses e tailandeses; grandes símios em cativeiro, javalis e cacatuas), mas todos em espécies onívoras ou frugívoras que usavam essa manipulação para remover areia e sujeira. Nunca tínhamos visto um carnívoro fazendo isso.
Mas o interesse vai além disso. Porque não apenas coloca em xeque a ideia de que os carnívoros terrestres capturam e escondem suas presas sem manipulá-las, como também questiona a noção de que os linces solitários não possuem grande capacidade de transmissão social. Essa descoberta sugere o contrário: que existe, sim, algo que poderíamos chamar de uma “cultura de linces”. Coisas que passam de uns para os outros.
Esta é a principal conclusão da série de estudos que essa equipe está desenvolvendo nos Montes de Toledo (cordilheira na Península Ibérica): apesar de convivermos há séculos com animais e plantas, há muitas coisas que ainda não sabemos.
Sobretudo quando se trata de animais que se aproximam cada vez mais daquilo que, durante anos, chamamos de “humanidade”.
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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