Um teto solar pode até ajudar a carregar um carro elétrico, mas ainda está muito longe de torná-lo um veículo autossuficiente. A montadora chinesa FAW Hongqi acaba de testar uma solução pioneira com painéis de perovskita capaz de produzir até 400 kWh por ano. No entanto, considerando que a bateria média de um modelo elétrico atual tem cerca de 60 kWh, toda essa energia acumulada pelo sol mal dá para pouco mais de seis recargas completas anuais.
A tecnologia em si não é uma novidade. Há anos diferentes fabricantes vêm apresentando carros com painéis solares integrados para aproveitar a luz do dia e recuperar parte da energia de suas baterias. O grande entrave sempre foi encontrar área útil suficiente na carroceria, alcançar uma eficiência aceitável e desenvolver materiais resistentes às intempéries. Por conta disso, quase todos os projetos do tipo acabaram como protótipos conceituais ou foram produzidos em volumes extremamente restritos.
Carro com teto solar da FAW Hongqi.
A Hongqi quer ir além do conceito de vitrine. De acordo com informações do site especializado Car News China, a marca desenvolveu um teto solar funcional equipado com tecnologia fotovoltaica de perovskita e o instalou em um SUV elétrico Hongqi EHS7. Em testes sob radiação solar ideal, o conjunto alcançou uma taxa de geração instantânea de 300 W e demonstrou potencial para entregar cerca de 400 kWh de eletricidade limpa ao longo de um ano.
O dado merece uma reflexão prática que vai além da engenharia pura. Um carro elétrico convencional com bateria de 60 kWh consome essa mesma quantia para ir de zero a 100% de carga. Logo, os 400 kWh anuais gerados no topo do teto garantem apenas 6,6 recargas completas a cada doze meses. Esse volume não tem a menor pretensão de substituir a recarga convencional na tomada, mas funciona como um apoio interessante para aliviar a demanda da rede elétrica.
A Hongqi também ressalta que essa energia pode ser destinada a alimentar componentes de baixa tensão do próprio carro, como o ar-condicionado, uma geladeira de bordo ou as câmeras do modo de vigilância quando estacionado. Essa aplicação faz muito mais sentido do que prometer condução gratuita e ininterrupta. Trata-se de usar uma área já disponível do veículo para obter eletricidade sem depender de cabos ou carregadores externos.
A aposta na perovskita é o grande divisor de águas aqui. A montadora chinesa deixou de lado o silício cristalino tradicional por considerá-lo excessivamente pesado, rígido e frágil para superfícies veiculares. Por outro lado, a perovskita — estrutura cristalina inspirada no mineral composto de óxido de cálcio e titânio — funciona quase como uma película flexível de alto rendimento: ela possibilita a fabricação de células fotovoltaicas ultrafinas, maleáveis e mais baratas de produzir, além de permitir variações de cor que facilitam o design.
Isso não significa que integrá-la a um automóvel tenha sido fácil. A divisão de pesquisa e desenvolvimento da Hongqi precisou contornar a sensibilidade natural do material à umidade, ao oxigênio e aos danos contínuos da radiação ultravioleta. Para completar, houve o desafio da curvatura: tetos solares panorâmicos raramente são retos, e os circuitos precisam manter a eficiência energética mesmo moldados sobre o vidro curvo.
O modelo que serviu de bancada de testes foi o Hongqi EHS7, um SUV elétrico de cinco lugares vendido no mercado da China sob o nome Hongqi Tiangong 08. O utilitário tem dimensões imponentes: 4,9 metros de comprimento, 1,9 metro de largura e 1,6 metro de altura, gerando até 339 cavalos de potência e entregando 475 km de autonomia segundo o ciclo WLTP. Animada com a viabilidade do teto, a marca já estuda revestir outras partes da lataria com perovskita, incluindo o capô.
Por enquanto, contudo, não há prazo formal para que essa tecnologia chegue aos carros de linha de montagem.
É nessa extensão de painéis que mora a meta mais ambiciosa do projeto. Pelos cálculos da fabricante, uma carroceria repleta de módulos fotovoltaicos poderia produzir até 10 kWh por dia, o que se traduziria em até 80 km de autonomia diária gerada exclusivamente pelo sol. A empresa garante que esse valor atenderia mais de 85% do trajeto diário de quem dirige carros elétricos nas cidades chinesas.
Contudo, passar de uma geração de 400 kWh ao ano num teto de vidro para expressivos 10 kWh diários espalhados pela lataria exige superar o desgaste severo que um carro enfrenta no asfalto cotidiano. Por ora, os tetos solares continuam sendo um excelente auxílio periférico, e não uma solução definitiva de mobilidade autônoma.
Imagem | Hongqi
Matéria traduzida e adaptada do site Xataka México.
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