Portugal lançou, em abril deste ano, um programa chamado Volta para facilitar a reciclagem de embalagens no país. A lógica é muito simples: ao comprar água, refrigerantes, sucos ou cervejas em latas ou garrafas de plástico, o consumidor paga dez centavos adicionais, que são integralmente devolvidos quando a embalagem é devolvida.
Em cinco meses, 305 milhões de embalagens foram retornadas. Ou seja, o programa deu certo. Deu tão certo que, nesta quarta-feira, o prefeito de Lisboa pediu ao governo que o “cancelasse imediatamente”.
Ninguém esperava, mas, em meados de julho, a prefeitura de Lisboa começou a se deparar com contêineres esvaziados e lixo nas calçadas por todo o Bairro Alto, o Cais do Sodré e o Chiado. A situação, durante o verão, foi ficando fora de controle: havia pessoas tirando os sacos das lixeiras e espalhando-os pela rua.
Esse vandalismo do lixo virou um problema, gerando gastos para coletar todos os resíduos espalhados. Outra questão é a falta de higiene provocada pela situação em áreas residenciais, turísticas ou com forte presença de estabelecimentos de alimentação e bebidas.
Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, afirma que, na prática, o governo central está transferindo os custos ocultos do programa Volta para as prefeituras.
O caso é interessante porque não ocorre apenas em Lisboa. Em Budapeste, o prefeito do distrito VI pediu em julho a suspensão do sistema até 2027: a área passou de um ou dois contêineres danificados por ano para cerca de dez por mês.
O caso de Dublin também é muito comentado e talvez seja o mais interessante. Durante 2025, a capital da Irlanda gastou meio milhão de euros com a “revirada” apenas em funcionários e fechaduras de lixeiras. Mas o interessante é que, quando Dublin analisou se havia mais gente revirando o lixo do que antes, não encontrou evidências disso.
Alguns analistas falam em “realocação” da revirada do lixo. Antes, ela estava concentrada em áreas específicas, mas, agora, se deslocou para regiões mais ricas (porque é onde há mais garrafas).
E por que tudo isso nos importa? Porque a Espanha recolheu separadamente apenas 41,3% de suas garrafas de plástico (contra uma meta de 70%) e será obrigada a impor um sistema muito parecido com o português. As redes informais já existem (Barcelona tem cerca de 3.200 catadores de sucata em atividade), e a introdução do nosso próprio Volta pode causar muitos problemas.
O modelo brasileiro foi desenhado para incluir socialmente as pessoas em situação de vulnerabilidade. Os catadores recolhem os materiais e os levam para cooperativas parceiras das prefeituras, trocando-os por dinheiro.
Imagem | Jon Tyson (Unsplash)
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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