A NASA publicou o mapa mais distorcido da Terra, mas o que ele visa mapear não é a forma geoide do planeta, e sim outra força

Este mapa, que retrata a forma exagerada da Terra, levou 15 anos para ser criado e exigiu nada menos que 19 satélites

A NASA publicou o mapa mais distorcido da Terra, mas o que ele visa mapear não é a forma geoide do planeta, e sim outra força.
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Fabrício Mainenti

Redator

Embora todos imaginemos nosso planeta como uma esfera perfeita no espaço, a realidade é bem diferente. Sabemos que a Terra é, de fato, esférica, embora ligeiramente achatada nos polos devido à força centrífuga de sua rotação combinada com sua própria gravidade. No entanto, até pouco tempo atrás, a "forma real" dessa gravidade era desconhecida e — para a surpresa de muitos — ela não é uniforme em toda a superfície.

O mapa mais recente do nosso mundo, publicado pela NASA, não retrata a forma física do planeta, mas sim o geoide — uma superfície que representa a forma que o nível do mar assumiria se fosse influenciado apenas pela força gravitacional e pela rotação da Terra, sem os efeitos de marés, ventos ou correntes. O resultado pouco se assemelha à imagem que temos do planeta visto do espaço.

O mapa da Terra criado pela NASA e pela ESA

O mapa baseia-se no modelo GOCO06s — um cálculo desenvolvido pelo consórcio internacional GOCO (Gravity Observation Combination), composto por universidades da Áustria, Alemanha e Suíça. Ele combina mais de um bilhão de observações coletadas ao longo de 15 anos por 19 satélites, incluindo as missões GRACE, da NASA, e a missão GOCE, da ESA.

A divulgação apresenta uma visualização em 3D do geoide terrestre — a forma "teórica" ​​que a Terra assumiria —, criada pelo Scientific Visualization Studio do Centro de Voo Espacial Goddard. O mapa não retrata a topografia física do planeta, mas sim variações no campo gravitacional, exageradas em um fator de 10 mil para torná-las perceptíveis.

A NASA publicou o mapa mais distorcido da Terra, mas o que ele visa mapear não é a forma geoide do planeta, e sim outra força.

Sem essa amplificação, as ondulações gravitacionais seriam indistinguíveis a olho nu. Para dar um exemplo, a altura do geoide varia de +85 metros na Islândia a -106 metros no sul da Índia — uma diferença que, em escala planetária, é considerada mínima.

Esse modelo específico de geoide foi desenvolvido por um consórcio internacional liderado por Andreas Kvas, do Instituto de Geodésia da Universidade de Tecnologia de Graz (Áustria), em colaboração com pesquisadores das universidades de Bonn, Munique e Berna.

As missões envolvidas na criação deste mapa mediram com precisão as variações nessa distância para detectar mudanças na gravidade associadas ao movimento de massas de água, gelo e umidade terrestre. Além disso, foram obtidas medições do campo gravitacional com alta resolução espacial utilizando um gradiômetro.

Em suma, enquanto a missão GRACE da NASA registrou variações temporais no campo gravitacional, a missão GOCE da ESA forneceu a resolução necessária para captar escalas espaciais mais detalhadas.

Além de seu apelo visual, este mapa é uma ferramenta essencial na geodesia: servirá de referência para medir a altitude real em relação ao nível do mar, criar mapas topográficos precisos, calibrar sistemas de navegação por satélite e estudar fenômenos como a elevação do nível do mar, a perda de massa de geleiras e as alterações nas reservas de águas subterrâneas.

O estudo que descreve o modelo destaca explicitamente essas aplicações na oceanografia, na geofísica e no estabelecimento de sistemas de referência globais. Assim, embora a Terra possa "de fato" parecer uma batata, a divulgação do mapa proporcionará muito mais aplicações científicas do que tal tubérculo poderia sugerir — ainda que batatas possam gerar eletricidade por conta própria.

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