Se existe uma regra inabalável no mundinho da tecnologia, é que todo ano deve ser lançada uma nova geração de qualquer produto. O mercado de RAM pode entrar em colapso, mas é certo que, todo ano, teremos um novo Samsung Galaxy e um novo iPhone.
Mas será que um novo celular topo de linha todo ano é mesmo necessário? A fabricante britânica Nothing, que produz o Nothing Phone, acredita que não.
Carl Pei não é apenas um dos fundadores da OnePlus: é a mente por trás do lançamento da marca Nothing. Após a chegada em 2022, a empresa britânica se apoiou em um marketing diferente, mas também em seu CEO muito ativo nas redes. Em contraste com a opacidade de colegas/rivais, Pei sempre se mostrou bastante “brincalhão” sobre a indústria, sua marca e o segmento em geral.
Em uma recente autoentrevista publicada em seu canal no YouTube, ele deu uma pista interessante. “Não vamos lançar um novo flagship todo ano só por lançar”. Aqui, há dois pontos: um é que não teremos o Nothing Phone (4) em 2026. O outro é que a decisão faz sentido, se levarmos em conta como as coisas estão.
A crise que se desenha
Embora para empresas como Micron, Samsung e NVIDIA isso esteja vindo a calhar, estamos há semanas imersos em uma nova crise de componentes. A RAM foi o primeiro produto cujo preço a transformou de um componente básico para um artigo de luxo. Agora, as placas de vídeo e os SSDs seguiram o mesmo caminho. E a situação não dá sinais de melhorar no curto e médio prazo.
Essa crise da RAM já está repercutindo no segmento de smartphones. Há duas opções: celulares muito mais caros ou celulares com muito menos RAM. Adeus às loucuras de 24 GB de memória em um celular, vamos voltar aos 4 GB.
O próprio Pei já comentou isso: se as coisas continuarem assim, o usuário terá que escolher entre pagar 30% a mais por um celular novo ou se contentar com um novo celular pelo mesmo preço do anterior, porém com menos RAM (e quanto ao armazenamento, ainda veremos). Ou seja, Pei disse, sem dizer diretamente, qual seria a decisão no caso de um Nothing Phone (4).
Software > Hardware
O fato de não haver um novo “flagship” da Nothing para 2026 não implica que ela não vai lançar um celular. Estima-se que a companhia esteja trabalhando em um Phone (4a) de faixa média que dê continuidade ao notável Nothing Phone (3a), ao mesmo tempo em que mantém os componentes sob controle para que o preço não dispare.
Isso faz sentido dentro de uma estratégia da indústria, na qual os maiores avanços que vimos nas últimas gerações têm mais a ver com serviços em nuvem, inteligência artificial e tudo o que envolve software, em vez de hardware. Sim, é importante ter um hardware mais potente, rápido e capaz para realizar tarefas no próprio dispositivo, mas a nuvem também é um pilar desse software.
Por outro lado, algumas empresas de hardware são obrigadas a manter a engrenagem girando. NVIDIA e Qualcomm são dois exemplos, com placas de vídeo mais capazes não tanto em termos de potência bruta, mas de melhor processamento de tarefas de inteligência artificial, como o DLSS. E também a Qualcomm, que todo fim de ano apresenta seus novos chips para dispositivos móveis, e são eles que vemos nos novos lançamentos da gama mais premium.
Também é verdade que, de um ano para o outro, não estamos vendo saltos consideráveis entre dispositivos de uma mesma marca. E é aí que faz todo sentido uma empresa como a Nothing apontar que, talvez, não seja necessária essa anualização dos “flagships”.
Seria preciso ver o que aconteceria em um contexto que não fosse de crise de componentes, é claro, mas o próprio Pei já disse em algumas ocasiões que o software é o futuro.
Imagem: Xataka
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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