Todos os anos, milhares de pessoas sofrem acidentes com escorpiões. Só em 2025, o Brasil registrou mais de 170 mil acidentes com o animal, um número alto o suficiente para gerar medo e empurrar muita gente na direção de soluções que parecem óbvias, mas nem sempre funcionam. Para evitar ser surpreendido pelo animal, é comum reforçar a dedetização ou apostar em soluções caseiras, como criar galinhas no quintal para “dar conta” do problema. A ciência, no entanto, reforça que nenhuma das duas medidas são soluções de fato eficientes.
Uma pesquisa realizada por doutorandos da Universidade de São Paulo (USP), em 2024, testou em laboratório de forma controlada, tanto pesticidas quanto o uso de galinhas no controle do escorpião-amarelo (Tityus serrulatus), a espécie que é responsável pela maioria dos acidentes no país. Porém, o resultado não foi exatamente o que se esperava, sugerindo que o problema não está na falta de veneno, mas na forma como tentam resolver a questão.
Veneno não afasta escorpiões e pode criar uma falsa sensação de segurança
A dedetização é uma medida eficaz no controle de diversas pragas urbanas, como baratas e formigas, e por isso costuma ser uma das primeiras medidas adotadas quando escorpiões surgem em casa. O problema é que, no caso desses aracnídeos, a dedetização não funciona da mesma forma que funciona para outras pragas.
Nos testes analisados pelo estudo, o pesticida só foi letal quando aplicado diretamente sobre o animal. Ele não teve efeito desalojante, ou seja, não fez o escorpião sair do esconderijo, nem impediu que entrasse em áreas já tratadas. Isso significa que o escorpião pode atravessar superfícies com veneno seco sem ser repelido e continuar circulando dentro do ambiente. O resultado é um controle apenas aparente: os poucos indivíduos visíveis são eliminados, enquanto os que permanecem escondidos em frestas, ralos e paredes continuam vivos e fora do alcance.
Galinhas comem escorpiões e resistem ao veneno, mas falham no momento mais crítico
Se o veneno decepciona, a galinha surpreende. Nos testes experimentais realizados pelos pesquisadores da USP, as aves se mostraram predadoras naturais do animal, capazes de comer até seis escorpiões em sequência. Durante o ataque, são picadas repetidamente, demonstram incômodo, mas não sofrem efeitos graves, não morrem e continuam se alimentando.
Esse desempenho poderia sugerir uma solução simples e “natural” para o controle do animal, mas não é tão simples quanto parece. O que funciona em laboratório não se traduz, necessariamente, em proteção no dia a dia. Isso devido a um motivo muito específico: as galinhas e escorpiões quase não se encontram.
As aves são ativas durante o dia, enquanto o escorpião-amarelo sai para caçar à noite, quando as galinhas estão empoleiradas ou dormindo. Além disso, as aves não conseguem alcançar frestas profundas, ralos, conduítes e o interior de paredes, que são justamente os principais esconderijos do animal.
Há ainda outro fator que pesa contra essa estratégia. O acúmulo de fezes de galinha pode favorecer a proliferação do flebotomíneo, inseto transmissor da leishmaniose, criando um novo problema de saúde pública. Sem contar que, em muitas cidades, a criação de aves em áreas urbanas é proibida sem autorização sanitária.
O resultado é um desencontro: mesmo resistentes ao veneno e eficientes como predadoras, as galinhas raramente estão no lugar certo, no momento em que o risco realmente existe. Por isso, os pesquisadores alertam que elas não devem ser tratadas como uma solução eficaz para o controle de escorpiões. Ou seja: o predador até existe, mas quase nunca está no lugar certo, na hora certa.
A estratégia que funciona não é química nem biológica, mas física
Diante das limitações tanto dos pesticidas quanto do controle biológico,a conclusão da pesquisa aponta para uma mudança de abordagem. Escorpiões dependem de irregularidades para se locomover e não conseguem escalar superfícies completamente lisas, como vidro, azulejo polido ou plástico. Isso faz das barreiras físicas uma das ferramentas mais eficazes no controle do animal.
Medidas como vedar frestas, manter ralos fechados, afastar camas e móveis das paredes, preservar rodapés e aplicar faixas lisas em muros e paredes reduzem drasticamente as chances de acesso ao interior das casas. Manter o ambiente limpo, sem entulho, restos de construção ou acúmulo de lixo, também é essencial para eliminar abrigos e fontes de alimento indiretas, como insetos. Ou seja, a lógica não é eliminar o escorpião com um produto específico, mas impedir que ele encontre condições favoráveis para se esconder, circular e se reproduzir.
Ver 0 Comentários