Na natureza, ainda há muitos mistérios escondidos e descobertas para fazer, e algumas delas têm o poder de reescrever a história do planeta. Uma pesquisa publicada em janeiro de 2026, na revista científica Science Advances, é um desses casos e pode mudar a forma como entendemos a própria origem da vida na Terra. Pesquisadores identificaram evidências de que os Prototaxites, organismos gigantes que dominaram os ambientes terrestres há cerca de 400 milhões de anos, não eram plantas, fungos nem algas, mas integrantes de uma nova forma de vida até então desconhecida e hoje extinta. Os fósseis, encontrados em um sítio paleontológico no nordeste da Escócia, pertencem a estruturas que chegavam a oito metros de altura, muito antes do surgimento das árvores.
As prototaxites cresceram em um ambiente sem vegetação
Há cerca de 400 milhões de anos, quando a Terra ainda não possuía florestas, o planeta tinha uma aparência muito diferente da atual. A paisagem era baixa, quase rasteira, e as plantas existentes mal ultrapassavam a altura do tornozelo humano. Mas, nesse ambiente primitivo, existiam estruturas verticais de até oito metros de altura. Elas eram lisas, cilíndricas e muito parecidas com troncos de árvore, mas não tinham galhos, folhas, flores ou raízes verdadeiras.
Esses fósseis começaram a ser encontrados em 1843 e receberam o nome de Prototaxites, algo como “teixo primitivo”, uma árvore rara conhecida pela sua toxicidade. No entanto, tempo depois, ficou constatado que o organismo não se tratava de uma árvore. Ao longo das décadas, cientistas tentaram enquadrar o organismo como uma alga terrestre gigante ou um fungo, mas nenhuma dessas definições conseguia responder a todas as inconsistências anatômicas e químicas observadas nos fósseis. Ao longo dos séculos, essa incerteza se manteve e acabou se tornando um impasse na ciência. O Prototaxites parecia grande demais, complexo demais e estranho demais para se encaixar em qualquer categoria conhecida.
Por dentro, os fósseis revelam um organismo diferente de tudo o que conhecemos
Os prototaxites são integrantes de uma nova forma de vida até então desconhecida e hoje extinta. Crédito: Laura Cooper, Universidade de Edimburgo
Para trazer novas perspectivas sobre o Prototaxites, os cientistas decidiram olhá-lo de dentro para fora. A equipe analisou um exemplar de Prototaxites taiti encontrado no Chert de Rhynie, no nordeste da Escócia, um dos sítios paleontológicos mais bem preservados do mundo. Com o auxílio de lasers, imagens em 3D e ferramentas de inteligência artificial, os pesquisadores investigaram tanto a estrutura interna quanto a composição química do fóssil.
A ideia dos cientistas deu certo, porque o que encontraram foi revelador para a ciência. Diferentemente dos fungos conhecidos hoje, que possuem redes organizadas de filamentos chamados hifas, o Prototaxites apresentava uma arquitetura interna muito mais caótica e diversa, composta por três tipos distintos de tubos, além de regiões densas onde essas estruturas se ramificavam de forma irregular.
Além disso, a análise química revelou que nenhum traço de quitina foi detectado. Esse polímero é um componente essencial das paredes celulares de todos os fungos conhecidos, vivos ou fossilizados. A ausência desse componente indica que, apesar da semelhança visual, o Prototaxites não compartilhava a base biológica dos fungos.
Estudo aponta que o Prototaxites pode ter sido uma forma de vida extinta e ainda inexplicável para a ciência
Com base nessas evidências, os pesquisadores descartaram a hipótese de que os Prototaxites fossem plantas ou fungos. A nova hipótese levantada é que esses organismos pertenciam a uma linhagem extinta de eucariotos, sem equivalentes vivos hoje. No entanto, nem todos estão convencidos dessa perspectiva. Alguns cientistas defendem que, ainda que fosse um fungo, o Prototaxites teria evoluído de forma independente, desenvolvendo uma complexidade multicelular única. O consenso, por enquanto, é que se trata de algo incomum.
Além de todas as dúvidas que giram em torno desse organismo, um outro mistério permanece sem resposta: como esses gigantes se sustentavam energeticamente? Estudos indicam que o Prototaxites provavelmente se alimentava de matéria orgânica em decomposição, assim como os fungos de hoje. Mas ainda não está claro como organismos tão grandes conseguiam crescer e se manter em um mundo quase sem biomassa vegetal.
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