Cuidado com a cabeça: helicópteros estão arremessando toras de madeira em rios nos Estados Unidos e você não vai acreditar por quê

Na tentativa de corrigir décadas de intervenções humanas, pesquisadores apostam em uma estratégia incomum - devolver aos rios aquilo que foi retirado deles

Troncos no rio. Créditos: ShutterStock
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Não se assuste se você avistar nos Estados Unidos helicópteros sobrevoando rios isolados e despejando enormes toras de madeira diretamente na água. Apesar de parecer estranho, esse movimento faz parte de uma operação que ocorre desde janeiro de 2026 no estado de Washington: mais de 6 mil troncos estão sendo recolocados em rios e córregos como parte do maior projeto de restauração fluvial já realizado na região.

A iniciativa cobre aproximadamente 38 quilômetros de cursos d’água, muitos deles inacessíveis por estrada, na tentativa de corrigir décadas de intervenções humanas que transformaram os rios em canais rápidos, rasos e biologicamente pobres. Ao devolver aos rios a madeira que foi retirada deles, no entanto, o objetivo é reconstruir habitats, resfriar a água, reativar a infiltração no solo e criar condições para que espécies marinhas consigam voltar a viver e se reproduzir.

“Limpar” os rios parecia uma boa ideia, mas essa medida acabou degradando ecossistemas inteiros

Em contextos de navegação, a presença de troncos no rio podem representar um problema pelo risco de colisões, danos estruturais e naufrágios. Porém, do ponto de vista ecológico, os troncos são fundamentais para a “saúde” do ecossistema aquático. Eles funcionam como abrigo para peixes e invertebrados, reduzem a velocidade da correnteza, ajudam a estabilizar margens e criam zonas de deposição de sedimentos. 

Além disso, a madeira também contribui para a ciclagem de nutrientes, servindo de base para algas, fungos e microrganismos que sustentam a cadeia alimentar dos rios. Em cursos d’água naturais, troncos, galhos e raízes formam estruturas complexas que aumentam a diversidade de habitats e tornam o ecossistema mais resiliente a cheias e períodos de seca.

Porém, ao longo do século 20, essa estrutura aquática natural passou a ser vista como um obstáculo ao desenvolvimento. Para “resolver” o problema, programas de limpeza fluvial se espalharam pelo mundo com o objetivo de facilitar a navegação, reduzir enchentes e dar aparência de ordem aos rios. O resultado foi a remoção de troncos, a retificação de meandros e a canalização de trechos inteiros, intervenções que simplificaram os cursos d’água e romperam processos ecológicos fundamentais.

Com menos obstáculos naturais, a água passou a escoar mais rapidamente, aumentando a força das cheias e acelerando a erosão das margens. A perda de habitats reduziu populações de peixes e outros organismos aquáticos, enquanto a diminuição da retenção de sedimentos e nutrientes afetou a qualidade da água. Ou seja, o que parecia uma solução para evitar enchentes e outras problemáticas, acabou se revelando um fator de degradação ambiental em larga escala.

Por que devolver madeira aos rios ajuda a retomar o ecossistema fluvial?

A pergunta que não quer calar é: por que simples troncos de árvores podem provocar transformações tão profundas no funcionamento de um rio? A resposta está na mudança de mentalidade que começou quando pesquisadores e biólogos passaram a enxergar os rios como sistemas vivos, dinâmicos e interligados, e não apenas como canais destinados ao escoamento rápido da água.

Isso acontece porque troncos submersos cumprem várias funções ao mesmo tempo, todas elas essenciais para a recuperação ecológica. Ao criar irregularidades no fluxo da água, a madeira forma remansos, fendas e poços mais profundos. Esses poços funcionam como refúgios térmicos, especialmente importantes em períodos de calor extremo, quando a elevação da temperatura pode ser fatal para peixes e outros organismos aquáticos.

Os troncos também ajudam a reter cascalho e sedimentos, que servem de base para a desova de peixes e para o desenvolvimento de invertebrados. Com o tempo, passam a funcionar como suporte para algas, fungos e insetos aquáticos, sustentando a base da cadeia alimentar e aumentando a biodiversidade do rio.

Além disso, ao reduzir a velocidade da correnteza, a presença da madeira favorece a conexão do rio com suas planícies aluviais. A água deixa de escoar de forma acelerada e passa a se espalhar lateralmente, infiltrando no solo e recarregando o lençol freático. Em vez de ser perdida rapidamente, ela é armazenada e liberada aos poucos, um mecanismo fundamental para manter o fluxo dos rios durante longos períodos de estiagem.

Esse conjunto de processos explica por que projetos de restauração fluvial ao redor do mundo têm apostado na reintrodução estratégica de madeira nos cursos d’água. Nessa lógica, os troncos deixam de ser associados à “sujeira” de um rio e passam a ajudar na reconstrução dos ecossistemas fluviais a na capacidade de se autorregular.

Helicópteros viraram cúmplices na restauração ambiental 

Para retomar de volta toda a biodiversidade perdida, o plano não é simples: executar essa estratégia em grande escala exige uma logística incomum. Isso porque muitos dos trechos escolhidos para a restauração ficam em áreas remotas, onde estradas deixaram de existir ou nunca foram construídas. Levar toras por caminhões ou máquinas deixa de ser uma opção viável nesses casos.

É aí que entram os helicópteros. Eles funcionam como “pontes aéreas”, transportando troncos de áreas de armazenamento até pontos específicos dos rios. Com cabos longos e orientação direta de biólogos em solo, que usam fitas coloridas para marcar os locais exatos, os pilotos depositam grupos de toras nos locais indicados

Outro ponto importante é que a madeira utilizada não é qualquer madeira. Ela vem de operações de manejo florestal em áreas mais altas, conduzidas por organizações como a The Nature Conservancy. Parte desse material não teria valor comercial, então ao invés de virar resíduo, ganha uma nova função: infraestrutura ecológica. No fim, o projeto tem por objetivo conectar a florestar, o rio e o clima em uma estratégia ecológica.

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