Cientistas e engenheiros concordam: os spoilers de motocicletas para a MotoGP são perigosos e estão causando acidentes

O estudo chega a uma conclusão que vai irritar mais de um fabricante

Imagens | MotoGP, Ducati, KTM
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Fabrício Mainenti

Redator

Houve uma época em que as motos de MotoGP realmente pareciam motos... mas aí vieram as aletas aerodinâmicas. Primeiro, eram pequenos apêndices experimentais da Ducati. Depois, apareceram em todos os lugares. Hoje, são uma visão comum no Campeonato Mundial e acabaram até mesmo em todos os tipos de motos de rua, de superbikes a esportivas de 125cc, ironicamente.

A aerodinâmica venceu a batalha... ou pelo menos era o que parecia, porque agora um grupo de pesquisadores levantou uma questão bastante incômoda: e se as aletas aerodinâmicas estiverem criando um problema de segurança que ninguém avaliou adequadamente? Eles comprovaram isso com um estudo científico.

As aletas aerodinâmicas podem estar afetando algo muito mais importante do que a velocidade

O estudo, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Brasília, analisa um aspecto raramente discutido quando se fala em aerodinâmica na MotoGP. Ele não se concentra na moto com as aletas, mas sim na que está atrás dela.

E é aí que as conclusões começam a ficar interessantes. Até agora, a explicação era simples: uma motocicleta liderava o caminho e a que vinha atrás aproveitava o vácuo para reduzir o arrasto aerodinâmico e ganhar velocidade. Um fenômeno conhecido há décadas tanto em motocicletas quanto em carros.

Mas as asas mudaram completamente o cenário. De acordo com o estudo, as asas geram vórtices aerodinâmicos semelhantes aos produzidos pelas asas dos aviões. Essas correntes de ar não desaparecem imediatamente atrás da motocicleta, mas continuam se movendo por vários metros.

Isso significa que a motocicleta que segue atrás não apenas entra no vácuo, mas também em uma zona de turbulência. Os pesquisadores descobriram que essas perturbações podem alterar a força descendente recebida pela motocicleta que vem atrás. Dependendo da distância e da posição exata em relação à rival, essas correntes podem modificar a estabilidade, a tendência a empinar e até mesmo o comportamento da dianteira.

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A descoberta mais surpreendente é que o efeito não desaparece simplesmente ao se afastar alguns metros: simulações mostram que a influência aerodinâmica permanece presente a distâncias maiores do que muitos imaginam, e é aqui que surge um dos aspectos mais delicados de todo o estudo.

O problema pode surgir justamente quando mais importa: durante a frenagem. As asas existem por um motivo: elas geram força descendente. Essa força descendente ajuda a manter a roda dianteira no asfalto, melhora a estabilidade na aceleração, reduz o risco de empinar e permite frenagens mais fortes.

Em teoria, são só vantagens, até que outra motocicleta apareça à frente. As simulações realizadas pelos pesquisadores mostram que, quando uma motocicleta está muito próxima de outra, ela pode perder uma parte significativa da força descendente gerada por suas próprias asas.

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Em alguns dos cenários analisados, a redução chega a cerca de 50%, ou, simplificando: a mesma motocicleta pode se comportar de uma maneira quando está sozinha e de outra ao tentar ultrapassar, e isso, em uma categoria onde os pilotos freiam no limite absoluto em todas as curvas, pode se tornar bastante sério.

Os autores chegam a relacionar esse fenômeno a situações reais vistas em competições. Entre os exemplos citados está o acidente entre Maverick Viñales e Marco Bezzecchi durante o sprint do Grande Prêmio da Austrália de 2024.

Embora não afirmem que a aerodinâmica foi diretamente responsável pelo incidente, acreditam que o fluxo de ar gerado por uma motocicleta pode influenciar a capacidade de frenagem da que vem atrás mais do que se pensava anteriormente.

Imagens | MotoGP, Ducati, KTM

Durante anos, a discussão sobre as asas aerodinâmicas se concentrou em quanto elas auxiliam nas curvas, quanto melhoram a aceleração ou quantos décimos de segundo permitem que os pilotos ganhem por volta, mas raramente se discute como elas afetam a competição.

A MotoGP já está preparando reduções para 2027, mas alguns acreditam que não serão suficientes. A coincidência é particularmente notável porque a MotoGP já decidiu reduzir significativamente a aerodinâmica a partir do regulamento de 2027.

A intenção é clara: motocicletas menos dependentes de asas, corridas mais equilibradas e ultrapassagens mais fáceis. No entanto, os autores do estudo acreditam que pode ser necessário ir além, muito além. De fato, eles sugerem que os reguladores considerem reduções ainda maiores e até mesmo a eliminação completa de alguns desses dispositivos, caso se confirme que eles têm efeitos negativos na segurança.

O paradoxo é enorme: as asas foram criadas para tornar as motos de MotoGP mais rápidas, eficientes e estáveis, mas agora surge uma questão que parecia impensável há poucos anos. E se parte do problema com as ultrapassagens modernas não forem os pilotos? E se for o ar deixado para trás pelas motos?

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