Às 4h30 da madrugada, um goleiro do "Amsterdam" sai de campo para buscar uma bola perdida na quadra ao lado. No espaço vizinho, separado apenas por uma cortina, outra partida está sendo disputada, com outras equipes. Daqui a pouco, ele também jogará ali, talvez por outro time.
Não há emoção nem expressão em seu rosto: ele simplesmente pega a bola e a devolve à sua quadra. À primeira vista, poderíamos estar observando um centro esportivo de bairro, mas há algo liminal e distópico nos gestos mecânicos, quase burocráticos, com que esse atleta encara a partida. Porque, para começar, o resultado é o que menos importa. O importante é nunca parar.
O coletivo Bellingcat, em colaboração com a revista de jornalismo investigativo sobre futebol Josimar, publicou em 21 de outubro de 2024 uma reportagem sobre a 1xBet, casa de apostas sediada no Chipre que transmite ao vivo milhares de partidas amadoras por ano a partir de ginásios sem público na Rússia, na Ucrânia e em Belarus.
Alimentando o vício
A investigação identificou 1.297 partidas de “short football” (uma variante do futsal disputada por equipes de duas a cinco pessoas) em um único período de 24 horas, em setembro de 2024. Isso é mais do que o total de partidas disputadas, ao longo de uma temporada inteira, pela Bundesliga, pela Premier League e pela LaLiga somadas. Em um ano, a 1xBet transmite cerca de meio milhão de partidas.
Os jogadores trocam de camisa entre uma partida e outra: o “Barcelona” se transforma em “Manchester City” meia hora depois e equipes com nomes de clubes europeus que, na realidade, não existem, se enfrentam em quadra.
Um blogueiro russo especializado em futebol, Viktor Kravchenko, já havia denunciado em 2021 que esses atletas eram recrutados para jogar em turnos e que as partidas eram combinadas previamente. A revista Josimar ouviu o relato de um jovem que recebia em dinheiro para jogar das nove da manhã às duas da tarde, disputando uma partida atrás da outra diante das câmeras da 1xBet.
Foto: Josimar
Ismail Vali, então CEO da empresa de análise Yield Sec, explicou à Bellingcat por que a 1xBet mantém em funcionamento uma estrutura que movimenta pouco dinheiro: quase ninguém aposta grandes quantias em uma partida de basquete infantil na Ucrânia às três da madrugada. Essas partidas servem para manter o usuário engajado e levá-lo a produtos com margens de lucro maiores. E não estamos falando apenas de apostas esportivas que, sejam legais ou não, rendem entre 9% e 10% — o cassino pode gerar para a casa de apostas margens de lucro de até 50%. "O crime só investe em mais crime", afirmou Vali, embora as apostas legais, tecnicamente, não sejam um crime.
Relações suspeitas
A Bellingcat rastreou três dos locais onde as partidas eram realizadas. Um deles é a escola de futebol Alexander Stepin, na cidade russa de Briansk, que, segundo um site ainda ativo em 2024 (hoje fora do ar), mantinha vínculos com o partido governista Rússia Unida e com a estatal de energia Gazprom. Em fotos publicadas no site, crianças apareciam posando com armas na mesma instalação onde as partidas eram gravadas.
Foto: Josimar
A 1.700 quilômetros dali, em Severodvinsk, a Bellingcat identificou uma partida feminina de floorball disputada por meninas de 14 e 15 anos; não há como saber se elas tinham conhecimento de que o jogo alimentava um mercado de apostas. Em Saransk, o mesmo centro esportivo que recebe partidas para a 1xBet também é usado para cursos de treinamento com armas.
Ninguém se importa?
Enquanto isso, a 1xBet aparece como patrocinadora de dois dos maiores clubes da Europa. O FC Barcelona renovou seu acordo com a casa de apostas até 2029, em julho de 2024, poucos meses antes da publicação da investigação. Procurado pela Bellingcat, o clube se recusou a comentar o caso. O Paris Saint-Germain, patrocinado pela 1xBet desde 2022, foi além: em setembro de 2025, quase um ano após a divulgação da reportagem, ampliou o acordo até 2028.
Em maio de 2026, a empresa de tecnologia regulatória para jogos online Gaming Compliance International estimou o mercado global de apostas online não regulamentadas em 5,9 trilhões de dólares durante 2025, com operadores ilegais concentrando 78% da receita bruta do setor.
Nos EUA, onde as apostas esportivas são regulamentadas na maioria dos estados, os operadores legais movimentaram quase 150 bilhões de dólares em apostas durante 2024 e geraram 13,71 bilhões de dólares em receita. E isso é apenas uma fração, obviamente, de tudo o que circula à margem da legalidade. As "fazendas" são apenas a superfície.
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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