A guerra tecnológica entre os EUA e a China no setor automotivo acaba de se intensificar. Washington estabeleceu um prazo limite para o uso de muitos componentes eletrônicos chineses atualmente presentes em carros conectados, e as fabricantes correm contra o tempo em busca de alternativas com um objetivo único: minimizar o risco de espionagem ou acesso não autorizado a dados sensíveis por meio dos sistemas eletrônicos dos veículos.
O cronograma deixa pouca margem de manobra: os softwares afetados serão proibidos a partir de 2027, e os hardwares deverão ser gradualmente eliminados antes de 2030. Embora quatro anos possam parecer muito tempo, a realidade é bem diferente. Para uma indústria que leva anos desenvolvendo um carro antes de lançá-lo no mercado, isso significa redesenhar modelos praticamente a partir de agora.
Trocar um chip implica redesenhar parte do veículo
O desafio é agravado pela longa dependência da indústria em relação a fornecedores chineses para grande parte de sua tecnologia de conectividade veicular. Sistemas de comunicação, módulos eletrônicos, antenas e microcontroladores fazem parte de uma cadeia de suprimentos na qual a China desempenha um papel fundamental.
Segundo a Reuters, fabricantes chinesas controlam cerca de 50% do mercado de controladores de IoT usados para conectar veículos — uma participação que agora é extremamente difícil de substituir.
Encontrar novos fornecedores em tempo recorde envolve mais do que apenas localizar alguém capaz de substituir uma peça por outra. As fabricantes precisam integrar os novos componentes, verificar a compatibilidade com o restante da arquitetura eletrônica, passar novamente por processos de validação e garantir a conformidade com todas as exigências de homologação — tudo isso enquanto tentam cumprir seus cronogramas de desenvolvimento e produção.
Uma oportunidade para a indústria dos EUA... com obstáculos significativos
Esse novo cenário também está impulsionando o surgimento de novos fornecedores locais. Um exemplo é a Eagle Wireless, empresa fundada perto de Cleveland no final de 2025 com o objetivo de fabricar módulos de conectividade para suprir a lacuna deixada pelos fornecedores chineses.
A demanda cresce rapidamente, mas estabelecer uma alternativa não é tarefa simples; o desafio vai além de apenas aumentar a produção. Exige também a contratação de centenas de engenheiros especializados e o desenvolvimento de novas soluções que não dependam de licenças tecnológicas originárias da China.
Mesmo empresas americanas utilizaram, por anos, propriedade intelectual chinesa, o que significa que muitos componentes precisarão ser redesenhados praticamente do zero.
O custo de romper a dependência da China
Como era de se esperar, esse processo trará consequências. Por exemplo, Matt Wyckhouse — CEO da Finite State e um dos especialistas consultados pela Reuters — sustenta que "a indústria terá de reprojetar alguns de seus sistemas eletrônicos para eliminar a tecnologia chinesa". Além disso, a Eagle Wireless reconhece que "seus componentes continuam entre 5% e 15% mais caros do que aqueles fabricados na China".
Somado a isso, há a exigência de verificar a origem de cada peça antes de vender veículos nos EUA — um desafio particularmente complexo para fabricantes que dependem fortemente de fornecedores chineses, como a Polestar. Enquanto isso, Pequim alega que os Estados Unidos utilizam a segurança nacional para justificar restrições comerciais, insiste que as empresas chinesas competem em condições de igualdade e pede respeito aos princípios do livre mercado.
Imagens | Mitsubishi, Polestar
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