Carros elétricos são veículos movidos por motores elétricos em vez de motores a combustão, utilizando baterias recarregáveis como fonte de energia principal. Por essa razão, a durabilidade das baterias sempre foi uma questão para os motoristas. A grande dúvida sempre foi a mesma: quanto tempo essa bateria realmente dura no mundo real?
Um estudo da Geotab, publicado em janeiro de 2026, analisou dados telemáticos de mais de 22.700 veículos elétricos, abrangendo 21 modelos diferentes. O resultado mostrou que a degradação média anual das baterias é de 2,3%, mesmo com o crescimento do uso de carregadores rápidos de alta potência. Os dados são baseados em telemetria real, informações coletadas diretamente dos veículos ao longo do tempo, o que permite acompanhar o desempenho das baterias em diferentes climas, rotinas de uso e padrões de carregamento.
Carga rápida acelera o desgaste, mas não como se imaginava
A carga rápida em corrente contínua (DC) acima de 100 kW aparece como o principal fator operacional associado ao envelhecimento mais acelerado das baterias. Segundo a Geotab, veículos que utilizam esse tipo de recarga com alta frequência podem registrar degradação média próxima de 3% ao ano.
A explicação está na própria física do processo. Quando uma grande quantidade de energia é transferida em pouco tempo, as reações eletroquímicas dentro das células ocorrem de forma mais intensa. Isso gera mais calor, aumenta o estresse térmico e amplia a pressão sobre os materiais internos da bateria. Ao longo dos anos, esse esforço repetido acelera o desgaste químico natural da bateria.
Já o carregamento em corrente alternada (AC) ou em potências mais baixas ocorre de forma mais gradual. A temperatura se mantém mais estável, as reações são menos agressivas e o envelhecimento tende a acontecer em ritmo mais lento. De acordo com o levantamento, veículos que utilizam carga rápida em menos de 12% das sessões apresentam degradação média em torno de 1,5% ao ano.
O que acontece com a bateria a longo prazo?
A forma de carregar influencia a durabilidade: potência elevada com alta frequência tende a aumentar o desgaste ao longo dos anos. Crédito: shutterstock
Quando a análise cruza frequência e potência, o impacto acumulado fica ainda mais claro. Veículos que combinam uso frequente de carregamento rápido com alta potência tendem a preservar cerca de 76% da capacidade original após oito anos de uso. Já aqueles que priorizam recargas mais moderadas podem manter algo próximo de 88% no mesmo período. Ainda assim, o estudo deixa claro que isso não representa uma falha estrutural, ressaltando que as baterias modernas são projetadas para durar mais do que a vida útil do veículo.
O retorno da média de degradação para 2,3% em 2025, após ter atingido 1,8% em análises anteriores, não indica um retrocesso tecnológico. Segundo a empresa, o movimento reflete principalmente mudanças no perfil de uso, como o uso de carregadores super rápidos, aumento da potência média das sessões (de cerca de 70 kW para mais de 90 kW) e entrada de novos modelos no mercado.
Clima, estado de carga e intensidade de uso: as variáveis que moldam a vida útil da bateria
A pesquisa da Geotab também mostra um detalhe que passa despercebido: a carga rápida não é a única variável relevante. O clima também tem um impacto significativo. De acordo com o levantamento, veículos que operam em regiões mais quentes, onde mais de 35% dos dias superam 25 °C, degradam cerca de 0,4 ponto percentual a mais por ano do que aqueles em climas amenos.
Para o Brasil, isso é motivo de atenção, principalmente por causa do clima. Como boa parte do território brasileiro registra temperaturas elevadas durante longos períodos, a variável térmica passa a ser relevante na estimativa de durabilidade. Ainda assim, isso não é motivo para alarme. As baterias modernas contam com sistemas avançados de gerenciamento térmico que regulam a temperatura interna, resfriando ou aquecendo o conjunto quando necessário. Isso reduz o impacto do calor externo e mantém o desgaste dentro de um padrão para o ciclo de vida do veículo.
Outro ponto interessante envolve o estado de carga (SOC). A recomendação de manter a bateria entre 20% e 80% não precisa ser seguida de forma rígida no dia a dia. Segundo o estudo, a degradação só se intensifica quando o veículo passa a maior parte do tempo em níveis extremos, acima de 80% ou abaixo de 20%. Ou seja, carregar até 100% antes de uma viagem ou rodar até níveis mais baixos ocasionalmente não representa um problema significativo. O desgaste tende a aumentar apenas quando o carro permanece por longos períodos nesses extremos.
Já a intensidade de uso, que é medida em ciclos de carga completos, também influencia na durabilidade da bateria. Motoristas que utilizam os veículos diariamente apresentaram cerca de 0,8 ponto percentual adicional de degradação anual em comparação com uso leve.
Com isso, conclui-se que as baterias modernas continuam estruturalmente fortes, mas o modo como são carregadas e utilizadas influencia diretamente o ritmo de desgaste. Potência elevada com alta frequência, exposição prolongada ao calor e permanência excessiva em níveis extremos de carga são variáveis que ajudam a explicar as diferenças observadas ao longo dos anos.
Ver 0 Comentários