Nova pesquisa surpreende: após o acidente nuclear de Fukushima, os porcos das fazendas fugiram para o mato e começaram a cruzar com javalis

Contra todas as previsões, a zona de exclusão de Fukushima se tornou um enorme laboratório

Porcos e javalis em Fukushima / Imagem: Max Saeiling (Unsplash), Wikipedia e Fukushima University
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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O dia 11 de março de 2011 foi um dos mais sombrios da história recente do Japão. E provavelmente o pior até agora no século 21. Um forte terremoto registrado em frente à ilha de Honshu desencadeou um tsunami com ondas de mais de dez metros que acabaram provocando, por sua vez, um acidente na usina de Fukushima. É preciso voltar a 1986, a Chernobyl, para encontrar um desastre semelhante.

Hoje sabemos que essa sequência de tragédias teve uma consequência inesperada: deu origem a um experimento involuntário com porcos e javalis.

Após o acidente de Fukushima Daiichi, as autoridades se apressaram em evacuar todas as pessoas que viviam em um raio de 20 quilômetros da usina nuclear. Chegou-se inclusive a recomendar que quem morava entre 20 e 30 km não saísse de casa. Hoje, uma década e meia depois, sabemos que o desastre de Fukushima teve outra consequência: os porcos que até então eram criados em fazendas domésticas fugiram e se refugiaram nas florestas, lugares que, até aquele momento, serviam de habitat para os javalis selvagens.

Porcos

A fuga dos porcos de Fukushima (e o encontro deles com as populações de javalis) poderia ter ficado como uma anedota menor, não fosse o fato de ter dado origem a um curioso experimento improvisado. O motivo? Os porcos que escaparam das granjas e os javalis acabaram se reproduzindo entre si.

“Sem introduções repetidas e com uma atividade humana mínima, a região se tornou um raro experimento natural de hibridização”, explica a Universidade de Fukushima. A experiência foi interessante o suficiente para chamar a atenção de Shingo Kaneko e Donovan Anderson, de Hirosaki, que decidiram realizar um estudo genético para entender melhor os resultados do cruzamento entre porcos e javalis. Suas conclusões foram publicadas há poucos dias em um artigo na revista Journal of Forest Research.

O estudo

Talvez a descoberta mais surpreendente tenha a ver com a renovação das populações. Porcos domésticos e javalis selvagens não se diferenciam apenas na aparência. Eles também apresentam padrões distintos. Por exemplo, enquanto os javalis se reproduzem uma vez por ano, os porcos criados em granjas têm um ciclo muito mais rápido ao longo de todo o ano. O estudo de Kaneko mostra que essa característica dos animais domesticados se manteve após a fuga e foi transmitida durante a hibridização pela via materna.

Há um dado que ajuda a entender melhor o quão acelerado foi o ritmo de reprodução. Para o estudo, os pesquisadores analisaram o DNA mitocondrial e marcadores genéticos de mais de 200 animais capturados ao longo de três anos, entre 2015 e 2018. Uma das primeiras questões que tentaram esclarecer foi: quão aparentados esses exemplares estavam com os porcos que fugiram em 2011? Quantos ainda descendiam daquela linhagem doméstica?

A conclusão foi surpreendente: muitos híbridos já se encontravam a mais de cinco gerações do cruzamento original, o que sugere “uma renovação genética incomumente rápida”.

“Embora anteriormente se tenha sugerido que a hibridização entre porcos reintroduzidos na natureza e javalis poderia contribuir para o crescimento da população, este estudo mostra, por meio da análise de um evento de hibridização em larga escala após o acidente nuclear de Fukushima, que o ciclo reprodutivo rápido dos porcos domésticos é herdado pela linhagem materna.”

Uma herança diluída

Não foi a única conclusão a que os especialistas chegaram. Outra, igualmente curiosa, é como evoluíram as criaturas híbridas.

O fato de as fêmeas domésticas favorecerem um ritmo maior de reprodução não significa que sua herança genética tenha sido mais pronunciada. Muito pelo contrário. As porcas de granja dinamizaram a renovação geracional, mas a força inicial de seus genes foi se diluindo pouco a pouco. “Em vez de prolongar a influência genética dos porcos domésticos, as linhagens maternas dos porcos na verdade aceleraram o recâmbio genético nas populações de javalis”, acrescentam os pesquisadores de Fukushima.

A pesquisa não é interessante apenas pelo que revela sobre a zona de exclusão de Fukushima. Suas conclusões vão além e têm implicações práticas para o resto do mundo. Os especialistas há tempos se preocupam com a hibridização entre animais domésticos e selvagens (especialmente entre porcos e javalis) por suas repercussões em nível ecológico.

Curiosamente, o acidente ocorrido no Japão em 2011 ofereceu aos pesquisadores um enorme laboratório para compreender melhor o fenômeno e como lidar com ele. “As descobertas podem ser aplicadas à gestão da fauna silvestre e às estratégias de controle de danos de espécies invasoras”, comemora Kaneko. “Ao entender que a linhagem materna do porco acelera o recâmbio geracional, as autoridades podem prever melhor os riscos de uma explosão demográfica.”

Imagens | Max Saeiling (Unsplash), Wikipedia e Fukushima University

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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