O mundo empresarial está tão aterrorizado com a IA que as contratações de recém-formados estão em crise. No entanto, há uma empresa que está indo justamente na direção contrária: a IBM não apenas não congelou esse tipo de contratação, como está triplicando. E o argumento dela é forte.
A IBM quer recém-formados. “Estamos triplicando nossa contratação para cargos juniores”, explicou Nickle LaMoreaux, a principal responsável por recursos humanos da IBM, em uma entrevista à Charter. De fato, destacou, esses postos que estão sendo preenchidos “são para desenvolvedores de software e para todos aqueles trabalhos que nos dizem que a IA pode fazer”. É uma declaração surpreendente, sobretudo levando em conta que a tendência do mercado é exatamente o oposto.
Os jovens da Geração Z (nascidos aproximadamente entre 1997 e 2012) enfrentam um dos períodos mais complexos para conseguir o primeiro emprego. Nos Estados Unidos, a taxa de desemprego entre recém-formados está em 5,6%, a mais alta da década se desconsiderarmos o período da pandemia. Executivos de empresas de tecnologia vêm alertando há tempos que a IA vai impactar fortemente o mercado de trabalho, especialmente na área de programação.
O desemprego entre os recém-formados — e entre os jovens — está em níveis recordes na última década nos EUA. Fonte: Federal Reserve Bank of New York.
Enquanto a concorrência parece demonstrar um interesse crescente em substituir cargos de nível inicial pela automação — 37% planejam fazer isso, segundo a Korn Ferry —, a IBM está mudando a mentalidade. Os engenheiros de software iniciantes não passarão o dia escrevendo código rotineiro que uma IA pode gerar. Em vez disso, vão se concentrar na interação com clientes e na supervisão dos resultados dos modelos. A IA já não substitui o júnior, mas o obriga a ser mais estratégico desde o primeiro dia.
Embora a tendência à automação pareça clara, a IBM não está sozinha nessa fuga para a frente. A Dropbox está fazendo o mesmo, e sua responsável por recursos humanos, Melanie Rosenwasser, acredita que a Geração Z tem uma vantagem fundamental: está mais preparada para trabalhar com IA do que os veteranos. Segundo ela, “é como se [os jovens da Geração Z] estivessem com suas bicicletas no Tour de France enquanto o resto de nós vai com rodinhas”, afirmou à Bloomberg.
O movimento da IBM não está isento de certo cinismo. A empresa fez esse anúncio apenas uma semana depois de realizar uma demissão em massa para se concentrar em áreas de crescimento. É como se tivesse criado uma porta giratória na qual tirou a experiência cara para deixar entrar juventude mais barata.
Seja como for, o CEO da IBM, Arvind Krishna, defende essa estratégia afirmando que a IA não substitui a capacidade humana, mas a amplifica. Esse discurso, acreditemos nele ou não, representa uma aposta singular, sobretudo num momento em que as empresas parecem considerar fazer o mesmo com muito menos funcionários. Para a IBM, a aposta está na lealdade e no conhecimento cultivado desde a base, em vez de subordinar tudo aos algoritmos.
“Developers, developers, developers!”
No evento .NET que a Microsoft organizou em 1999, aconteceu o célebre momento viral em que um Steve Ballmer superempolgado e suado passou a gritar sem parar “Developers, developers, developers!”. A empresa tentava voltar a atrair talentos com esse discurso, mas, na realidade, esse trabalho já vinha sendo intenso anos antes.
Contratar recém-formados funcionou muito bem para a Microsoft. Steven Sinofsky, que liderou o desenvolvimento do Windows 7, contou no Twitter como a Microsoft se tornou o que era graças à sua estratégia de contratar recém-graduados — mesmo que ainda não tivessem terminado a faculdade. O desenvolvimento do Office, por exemplo, se beneficiou especialmente desses jovens, mas essa estratégia acabou sendo interrompida. Como explica Sinofsky: “Os ‘tempos sombrios’ se agravaram por uma pausa forçada na contratação de recém-formados, e as consequências foram sentidas cinco anos depois”.
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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