Entre 1958 e 1961, a China foi assolada por uma das maiores crises de fome da história e o motivo por trás disso vai te deixar surpreso: a “Campanha das Quatro Pestes” tinha o propósito de acabar com mosquitos, ratos, moscas e pardais em um dos objetivos traçados por Mao Tsé-Tung para transformar o país, que à época era predominantemente rural, em uma potência industrial. Durante os anos da “Grande Fome Chinesa”, a estimativa é de que 15 a 55 milhões de pessoas tenham morrido por inanição.
Grande Salto Adiante: o plano fracassado de Mao Tsé-Tung
Mao Tsé-Tung já era líder chinês há 10 anos quando decidiu implementar o “Grande Salto Adiante”, um plano de quatro anos que transformaria a China em uma potência industrial e econômica. Na época, o país era marcado por forte dependência da agricultura local, que condicionava a população a ciclos de secas e enchentes e, consequentemente, pobreza generalizada e riscos iminentes de crises de fome.
Dentre os objetivos traçados por Mao para reparar a realidade do país, estava a “Campanha das Quatro Pestes”. O plano visava o extermínio de mosquitos, ratos, moscas e pardais que, segundo o governo, eram os principais causadores de pestes que assolavam o país, como peste bubônica e malária. Os pardais entraram na lista ao serem considerados culpados por comer sementes, frutas e grãos e prejudicar produções agrícolas.
Estudiosos fizeram alertas contra o plano: Zhu Xi, biólogo renomado, citou a infestação de pragas na Prússia no século 18, resultado do extermínio de pardais. Apesar disso, Mao não abriu mão da campanha contra os pássaros.
Extermínio de pardais resultou em infestação de pragas nas plantações
Com a “Campanha das Quatro Pestes” em andamento, camponeses formavam equipes para exterminar milhares de pardais diariamente. Em Pequim, por exemplo, cerca de 800 mil exemplares do pássaro foram mortos em apenas três dias. Os extermínios contavam com incentivos do governo chinês: concursos para quem matasse em mais quantidade e recompensas para quem levasse carcaças ao escritório do governo.
Apesar de tudo, o líder chinês ignorou um detalhe biológico crucial: embora realmente se alimentem de sementes no inverno, os pardais são os principais predadores naturais de pragas como gafanhotos e brocas-de-arroz.
Sem o controle biológico feito pelos pássaros, as plantações foram rapidamente invadidas por nuvens de insetos.
Em dois anos, cerca de 2 bilhões de pardais haviam sido mortos. Com isso, o governo de Mao Tsé-Tung foi surpreendido com um forte agravamento da infestação de pragas nas plantações de todo o país, além de uma drástica diminuição na produção de grãos.
Em um país majoritariamente rural, a infestação de pragas sem um agente de controle biológico deixou a população praticamente sem ter o que comer. A partir daí, iniciou-se o que hoje é conhecido como “Grande Fome Chinesa”. O governo do país estima que 15 milhões de pessoas tenham morrido por inanição, mas outros estudos calculam números de até 50 milhões.
A solução tardia: a importação de aves da URSS
Em 1960, com os pardais praticamente extintos e o país mergulhado no caos, Mao Tsé-Tung recuou. Ele removeu os pássaros da lista de pestes — substituindo-os por percevejos — e autorizou a importação de 250 mil pardais da União Soviética para tentar restaurar o equilíbrio ambiental da China.
Hoje, a caça e o consumo de pardais são expressamente proibidos em todo o território chinês.
Foto de capa: Alpha History/Reprodução
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