Quando uma série custa US$ 20 milhões por episódio e as filmagens se arrastam por um ano e meio entre paralisações, greves e reescritas, só existem duas opções: desistir ou assumir o controle total. A Apple escolheu a segunda opção. Conforme noticiado com exclusividade pelo Deadline, a Apple concluiu a compra de Ruptura do estúdio independente Fifth Season no final de 2024 por cerca de US$ 70 milhões. A partir da terceira temporada, a Apple Studios produzirá a série, enquanto a Fifth Season será a produtora executiva.
Ruptura se tornou a joia da coroa da Apple TV+: foi a série mais assistida da plataforma quando sua segunda temporada estreou e recebeu diversas indicações ao Emmy. Mas chegar a esse patamar foi uma verdadeira provação de produção.
Segunda temporada saiu do controle
A segunda temporada de Ruptura começou a ser filmada em outubro de 2022 e só terminou em abril de 2024. Dezoito meses de produção para dez episódios. Nesse meio tempo: oito meses e meio de hiato devido a greves de roteiristas e atores em Hollywood, protocolos da Covid-19 que se estenderam até maio de 2023, atritos na sala dos roteiristas, constantes mudanças no roteiro que forçaram o descarte de locações já construídas e refilmagens.
O custo disparou. Cada episódio da segunda temporada teria custado até US$ 20 milhões, uma cifra estratosférico mesmo para os padrões de streaming premium. Para a Fifth Season, o estúdio responsável pela produção, isso se tornou um fardo financeiro difícil de sustentar. Os incentivos fiscais em Nova York estavam atrasados, as taxas de juros subiram de 1% para 6%, e o estúdio chegou a considerar transferir as filmagens para o Canadá para obter reembolsos mais rápidos e generosos.
Mas mudar Ruptura de Nova York não fazia sentido criativo. A série tem sua base de operações lá, seus cenários gigantescos, sua equipe consolidada. A Apple sabia disso, e também sabia que, se a série fosse sua, poderia esperar pelos incentivos fiscais sem a pressão imediata de um estúdio independente precisando de liquidez.
O edifício Lumon está localizado nos arredores de Nova York, como você pode ver no Apple Maps
Quatro temporadas confirmadas (e talvez mais)
Com a compra em mãos, a Apple deixou claro seu plano a longo prazo. Há oficialmente uma renovação para uma terceira temporada, mas, de acordo com o Deadline, a quarta está praticamente fechada. Ben Stiller e Dan Erickson, diretor e criador da série, sempre falaram sobre um arco de 3 a 4 temporadas, e a Apple está totalmente alinhada com essa visão. No momento, eles descartam uma quinta... mas estão abertos a expandir o universo de outras maneiras.
É aí que fica interessante. De acordo com fontes próximas à produção, prequels, spin-offs e até versões estrangeiras de Ruptura estão sendo considerados. Com intervalos de três anos entre as temporadas, lançar projetos menores dentro do mesmo universo manteria o público engajado e aumentaria o valor da franquia.
Ben Stiller
Terceira temporada começará no verão, se tudo correr bem
A Apple quer que a terceira temporada comece a ser filmada neste verão norte-americano. Já existem seis roteiros finalizados, o sétimo está em fase de esboço e mais alguns precisam ser finalizados. Mas aqui entra outra lição aprendida com a segunda temporada: não começar a filmar com três ou quatro roteiros pendentes.
Ruptura é uma série com uma trama densa. Uma mudança na trama do episódio 8 pode forçar uma reescrita do episódio 2 porque algo deixa de fazer sentido. Fazer isso no papel é barato, mas quando você já filmou e construiu os cenários é muito caro. É por isso que, embora o calendário aponte para o verão, a Apple e Ben Stiller preferem adiar o início das filmagens por algumas semanas, se isso significar ter todos os roteiros finalizados antes de ligar as câmeras.
Para dirigir esta nova etapa, entra em cena um novo nome: Kogonada, cineasta conhecido por seu trabalho em 'Pachinko', também disponível na Apple TV. Sua chegada reforça o compromisso com um tom visual cuidadoso e um ritmo lento, marcas registradas de Ruptura.
Apple Studios em ascensão
Esta operação faz parte de uma estratégia maior. A Apple vem construindo a Apple Studios, seu braço de produção interna, há seis anos e já produz quase metade de seu catálogo. Começou, como a Netflix em seus tempos, licenciando séries de estúdios externos (Ted Lasso, The Studio), mas está apostando cada vez mais na produção interna.
O caso de Ruptura é semelhante ao de Silo, que também passou da AMC Studios para a Apple Studios após uma transferência muito cara.
Além disso, a Apple introduziu um sistema de bônus de desempenho para suas próprias produções. Em vez do modelo tradicional de "custo mais taxa" (você paga o custo total mais uma porcentagem fixa), os talentos agora são pagos com base no número de assinantes da série e na relação entre audiência e custo. Equipes de sucesso podem receber até US$ 10,5 milhões extras por temporada. É o retorno do modelo clássico de distribuição, mas adaptado ao streaming.
Terceira temporada ainda vai demorar
A terceira temporada provavelmente chegará em 2027, mas saber que a Apple apostou pesado (muito pesado) no futuro da série traz tranquilidade. Não se trata de uma renovação sazonal: é uma compra total, um plano de quatro anos e o desejo de extrair o máximo dele.
E se aprendemos alguma coisa com a Apple TV, é que quando você se apaixona por um projeto, não economiza. A responsabilidade passou de inquilino para proprietário. Agora é hora de ver se o controle total se traduz em menos problemas de produção e mais regularidade entre as temporadas. Porque três anos de espera entre lotes de episódios é uma separação que nenhum fã quer sofrer novamente.
Fonte | Deadline
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