Foi no início de 2025 que a ciência descobriu algo "a mais" sobre essas criaturas que haviam despertado tanta discussão. Sabíamos que os polvos eram incrivelmente inteligentes, mas não a ponto de possuírem um "cérebro" em cada tentáculo — o que lhes permitia, ao que parece, agir com extrema precisão e independência. O Reino Unido viu-se diante de uma "fera" tão versátil.
Mas não se tratava de um acontecimento comum; era uma invasão sem precedentes que se repetiria em 2026.
Um ataque à costa inglesa
De fato, o litoral sul da Inglaterra vivenciou um fenômeno extraordinário: uma chegada em massa de polvos-do-mediterrâneo — uma espécie raramente encontrada naquelas águas que, de repente, passou a dominar os portos e mercados de peixe.
Em Brixham, o principal porto da região sudoeste, pescadores como Arthur Dewhirst viram suas redes transbordarem de cefalópodes em vez da captura habitual, transformando o trabalho diário em ganhos financeiros inesperados que geravam até 10 mil libras (cerca de R$ 70.204) de renda extra por semana.
Durante a primeira temporada (2025), mais de 12.000 toneladas foram leiloadas, com picos diários de 48 toneladas, rendendo à cidade o título de "capital do polvo" do Reino Unido. Restaurantes e lojas aderiram à febre, destacando o animal em cardápios e vitrines e adotando-o como um símbolo local de um ano excepcional.
Um ano depois, em junho de 2026, a captura de um único dia em Brixham foi avaliada no valor recorde de 500 mil libras (cerca de R$ 3,5 milhões). Outras fontes relatam capturas diárias entre 20 e 36 toneladas em janeiro de 2026.
Mudanças climáticas
Cientistas apontam o aquecimento dos mares como a principal explicação para o fenômeno. O professor Steve Simpson, da Universidade de Bristol, observou no The New York Times que, embora as águas britânicas estejam no limite norte da área de distribuição habitual do polvo-do-mediterrâneo, o aumento das temperaturas tornou o ambiente mais favorável para que a espécie se estabelecesse ali.
O que parecia impossível algumas décadas atrás tornou-se realidade: um sinal direto das mudanças climáticas, visível na abundância de uma espécie que, anteriormente, raramente chegava a essas latitudes.
Benefícios e ameaças
Embora o boom tenha trazido um alívio econômico inesperado para muitos operadores de traineiras, o cenário é mais sombrio para os pescadores de caranguejos e lagostas. Polvos — predadores vorazes e inteligentes — ocuparam as armadilhas usadas para capturar crustáceos, devorando a presa em seu interior e deixando para trás apenas carapaças vazias.
Em cidades como Salcombe, pescadores experientes, como Jon Dornom, descreveram sua surpresa inicial — ao encontrar "centenas de alienígenas" em suas armadilhas —, sentimento que logo deu lugar à preocupação ao observarem a queda drástica nas populações de crustáceos.
Eles passaram de pescarias bem-sucedidas, com capturas de quase três toneladas, para encontrar armadilhas repletas de restos, uma tendência que ameaça a viabilidade de seus negócios a médio prazo.
Impacto nas espécies
A D&S IFCA publicou uma análise comparativa de 18 embarcações, contrastando os números de 2023 com os de 2025: as capturas de caranguejo caíram entre 16,32% e 95,59%, enquanto 15 das 18 embarcações também registraram declínio na captura de lagostas.
Uma pesquisa com 40 pescadores revelou quedas de 30% a 50% nas capturas de caranguejo, lagosta e vieira em 2025, com mais da metade relatando impactos negativos.
Um dado revelador
A dimensão do fenômeno é melhor compreendida por meio de uma comparação com a Galícia: durante as temporadas 2024–2025 e 2025–2026, foram desembarcadas na região aproximadamente 1.116 e 1.327 toneladas de polvo, respectivamente — um total combinado de cerca de 2.443 toneladas.
No Reino Unido, embarcações britânicas desembarcaram mais de 3.200 toneladas apenas no primeiro semestre de 2026, sendo que apenas seis portos no sudoeste da Inglaterra foram responsáveis por 3.057 toneladas.
Em outras palavras, em apenas seis meses, o Reino Unido desembarcou cerca de 30% mais polvo do que a Galícia durante suas duas últimas temporadas completas somadas — a ponto de o mês de maio de 2026, isoladamente, ter ultrapassado a marca de 1.100 toneladas.
Um fenômeno incerto
Até onde se sabe, a última grande proliferação de polvos em águas inglesas remonta à década de 1950, quando surgiram em massa e desapareceram em apenas um ou dois anos. Esse registro histórico destaca a imprevisibilidade do fenômeno: ninguém podia afirmar com certeza se o aumento populacional se repetiria ou se seria um evento isolado — uma questão que 2026 acabou por responder.
Para os pescadores, essa incerteza é crucial, pois seu futuro econômico depende tanto da continuidade do boom quanto dos possíveis danos causados às populações de crustáceos.
E isso está acontecendo novamente este ano
Segundo a Marine Biological Association, à "explosão" populacional de 2025 seguiu-se outra em 2026, com mergulhadores e pescadores relatando, mais uma vez, a presença de grandes quantidades de polvos.
A Devon & Severn IFCA confirmou oficialmente o fato em julho de 2026; um estudo recente também aponta esse episódio como apenas o quarto do gênero em 125 anos, com mais de 1.200 toneladas desembarcadas em uma única temporada.
Impacto social e cultural
O aumento na população de polvos teve repercussões que vão além da economia. Em Brixham, o animal tornou-se um símbolo da identidade local: murais em cafés, letreiros de neon em edifícios do porto, vídeos virais de chefs demonstrando como prepará-lo e pratos inovadores que foram bem recebidos tanto pelos moradores quanto pelos turistas.
De fato, a criatura deixou de ser uma curiosidade exótica para se tornar um produto de consumo em massa em uma região pouco habituada a ela. Esse entusiasmo do público contrasta com os receios daqueles que se preocupam com a ameaça às pescarias tradicionais inglesas — espécies fundamentais para a dieta e o comércio da região.
Medida regulatória
A Cornwall IFCA propôs uma moratória emergencial proibindo grandes embarcações (multicascos com mais de 10 metros e monocascos com mais de 12 metros) de utilizar armadilhas para a captura de polvos; a medida entrou em vigor em 1º de julho de 2026, por um período de 12 meses.
Além disso, a MMO lançou um programa de amostragem nos mercados de Brixham e Newlyn (iniciado em fevereiro de 2026) e um portal para que mergulhadores e o público em geral possam relatar avistamentos.
Entre uma oportunidade inesperada e o receio
A invasão de polvos na costa sul da Inglaterra reflete a complexa interação entre as mudanças climáticas, a economia pesqueira e a ecologia marinha. Enquanto alguns celebram o que se configura como uma abundância inesperada, outros temem uma catástrofe capaz de perturbar permanentemente o equilíbrio de suas áreas de pesca.
Além disso, a experiência da década de 1950 serve como lembrete de que os polvos podem desaparecer tão repentinamente quanto surgiram; contudo, o aquecimento global sugere que tais fenômenos tendem a se tornar cada vez mais frequentes.
Para os pescadores, a lição parece clara: o destino de seu meio de subsistência já não depende apenas do mar, mas também das flutuações climáticas e do comportamento imprevisível de um cefalópode que se tornou, simultaneamente, uma tábua de salvação e uma ameaça.
Imagem de capa | Pexels, Martijn Klijnstra
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