Tendências do dia

A IA nos trouxe uma minirrevolução: nossos dispositivos estão mais suscetíveis a modificações e personalizações do que nunca

Fazer root não exige mais saber ler binários ou passar noites a fio em fóruns; agora, basta pedir e persistir... mas também há algumas letras miúdas

A IA nos trouxe uma minirrevolução: nossos dispositivos estão mais suscetíveis a modificações e personalizações do que nunca.
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
fabricio-mainenti

Fabrício Mainenti

Redator

Até pouco tempo atrás, abrir um dispositivo eletrônico exigia treinamento técnico — ou, no mínimo, anos vasculhando fóruns, incontáveis ​​horas e dezenas de abas do navegador abertas. Isso mudou; agora, basta um chatbot e um pouco de tempo livre para fazermos o que quisermos com nossos microfones, webcams ou tablets — ou, pelo menos, para fazer muito mais do que o fabricante jamais imaginou.

Há alguns dias, Chaz Schlarp compartilhou o que o Claude Opus 5 fez com cinco periféricos em sua mesa. Foi preciso realizar treze horas de processamento computacional, enviar quase cem mensagens e dedicar noites ao longo de duas semanas para concretizar o feito.

Veja o que aconteceu

Graças a essas sessões com o Opus, ele descobriu que a câmera Insta360 Link podia continuar gravando mesmo com o LED verde apagado. O microfone — um Shure MV7, item essencial em muitas configurações de podcast — vem com um console de comando USB integrado; isso permitiu tornar o botão de mudo inútil e, ao mesmo tempo, fazer com que a luz indicadora de mudo mentisse sobre o status do aparelho.

Como o microfone se comunica pelo mesmo canal que um teclado, uma simples permissão de "Permitir" no Chrome bastava para controlá-lo a partir de uma página da web. Schlarp já relatou suas descobertas aos fabricantes.

O contexto

Fazer o root em um tablet sem um método público disponível costumava ser o tipo de discussão em fórum que deixava de ter relevância lá por 2022. Analisar o firmware de um microfone era uma tarefa reservada a quem sabia ler código binário e tinha muita paciência.

Instalar software personalizado em um periférico era uma empreitada enorme, pois cada modelo exigia um trabalho de engenharia específico. Esse custo por modelo era uma barreira adicional que se somava ao esforço já considerável necessário para modificar o dispositivo.

Os números

Eric Pardee pagou US$ 114 (cerca de R$ 588) pelo seu Kindle Fire HD 10, mas personalizá-lo de verdade lhe custou US$ 266 (cerca de R$ 1.373) em tokens de IA.

O Claude inicialmente resistiu devido aos seus filtros de segurança cibernética, mas o Kimi encontrou a brecha, e o GLM-5.3 levou apenas um dia para remover cem pacotes da Amazon (aqueles que desativavam a interface padrão do dispositivo) e passar o controle para o proprietário. Quanto a esse caso, Pardee diz que, após duas décadas no setor de tecnologia, tudo o que ele fez foi fazer perguntas, persistir e passar o bastão.

E há também o caso do mouse

O OpenLogi é mais uma iteração desse mesmo movimento. Se você compra um mouse Logitech MX, precisa do aplicativo oficial da marca para configurar os botões — e esse aplicativo exige uma conta e o envio de dados de telemetria. Um projeto de código aberto contornou essa barreira de controle. Sem exploits ou falhas de segurança envolvidos: em suma, criar o software que o fabricante se recusou a desenvolver já não exige uma empresa inteira.

A expertise em engenharia, antes necessária para fazer ajustes em nossos dispositivos, agora se resume a pouco mais do que fazer perguntas e persistir.

Sim, mas...

A conclusão óbvia é que vencemos. E, em parte, vencemos mesmo: durante anos, o argumento contra o direito ao reparo era o de que pessoas comuns não saberiam realizá-lo — e esse argumento acaba de cair por terra.

No entanto, vale a pena analisar a origem dessa vitória: assumimos o controle de nossos dispositivos "alugando" capacidade de terceiros, que decidem quais modelos existem, quais filtros são aplicados e quanto custa cada tentativa.

Trocamos uma trava que não sabíamos abrir por uma chave que não fabricamos nós mesmos. É uma enorme evolução em relação ao passado. Mas ainda existem algumas letras miúdas.

Imagem de capa | Đào Hiếu

Inicio