A grande "necrópole das baleias": o cemitério de 1.200 quilômetros onde cetáceos morrem há milhões de anos

As baleias têm fornecido sustento para todo um ecossistema bacteriano nas profundezas do oceano

A grande "necrópole das baleias": o cemitério de 1.200 quilômetros onde cetáceos morrem há milhões de anos.
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Fabrício Mainenti

Redator

O oceano profundo permanece como o vasto arquivo inexplorado do nosso planeta, e cada descida à zona abissal tem o potencial de revelar algo extraordinário, algo até então desconhecido. Foi o que aconteceu com a expedição do submersível Fendouzhe, que descobriu um vasto cemitério de animais na Zona Diamante do sudeste do Oceano Índico.

O que encontraram

Após 32 mergulhos a profundidades sufocantes entre 4.616 e 7.001 metros, os pesquisadores mapearam um imenso megassítio com uma faixa de 1.200 quilômetros de extensão repleta de fósseis e esqueletos. É, de longe, a maior necrópole de cetáceos já documentada.

Essa descoberta foi publicada em um artigo na revista Nature, que a descreve como uma "necrópole de baleias". No entanto, não se trata de um único sepultamento em massa resultante de um evento catastrófico, mas sim de uma dolina histórica onde as carcaças de baleias moribundas se acumularam ao longo de milhões de anos.

A identificação

A equipe identificou 476 fósseis de cetáceos e cinco comunidades biológicas ativas de carcaças recentes em uma área de amostragem mínima. Extrapolando a partir desses números, cientistas da Academia Chinesa de Ciências (CAS) estimam que possa haver cerca de 750 fósseis por quilômetro quadrado.

Nas palavras de um especialista como Stephen Godfrey, de acordo com declarações coletadas pelo LiveScience: "É como se cada uma dessas carcaças de baleia fosse um pequeno restaurante novo abrindo ao longo de um shopping center de 1.200 quilômetros".

Uma viagem no tempo

A importância da descoberta reside não apenas na quantidade impressionante desses restos de baleia, mas também em sua idade. Usando a datação por isótopos de estrôncio, os pesquisadores conseguiram confirmar que alguns desses fósseis têm pelo menos 5,3 milhões de anos, datando do início do Plioceno.

Entre os ossos recuperados, principalmente mandíbulas superiores, foram identificadas cinco espécies de baleias-bicudas e uma espécie de baleia-de-barbatana. Mas a estrela paleobiológica da descoberta é uma espécie extinta, chamada Pterocetus diamantina.

Vida na morte

A 7.000 metros de profundidade, existe muito mais vida do que imaginamos, mas na forma de bactérias. O problema é que a energia que nos chega da superfície não vem na forma de luz, mas literalmente de carcaças de baleias que afundam sob o próprio peso e alimentam um vasto ecossistema.

Sabemos que bactérias especializadas prosperam na escuridão, decompondo os óleos dentro dos ossos e liberando sulfeto de hidrogênio. Essa energia química forma a base de uma teia alimentar que atrai densidades impressionantes de organismos, chegando a 2.840 indivíduos por metro quadrado. Entre eles, estão vermes comedores de ossos e moluscos bivalves.

Sua importância

De acordo com relatórios publicados, a Zona Diamante tem uma importância dupla. Por um lado, ela documenta vividamente como um recurso concentrado como uma carcaça gigante pode sustentar a biodiversidade sob pressões esmagadoras. Por outro lado, ao preservar fósseis do Mioceno Superior e do Plioceno, proporciona uma vasta "biblioteca" de como as baleias se adaptaram, cresceram e colonizaram os oceanos.

Imagens | Jonathan Hsu 

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