"Isso saiu de moda." Será mesmo? Hobbies e técnicas de artesanato que, até pouco tempo atrás, eram considerados antiquados vivem agora uma segunda era de ouro, graças a uma combinação de fatores: a necessidade de se desconectar do mundo digital, a disseminação dessas atividades pela internet (paradoxalmente) e uma valorização renovada do legado de gerações anteriores.
Como resultado, passatempos como crochê, costura e cerâmica estão passando por um renascimento.
O que está acontecendo
Muitos jovens na casa dos vinte anos estão redescobrindo hobbies manuais, como pintura em cerâmica, bordado e tricô. Oficinas e encontros onde jovens compartilham técnicas e projetos finalizados estão se multiplicando.
Por exemplo, a feira Love Yarn Madrid consolidou-se como o maior evento da Europa dedicado à lã e ao crochê, contando com 14.000 metros quadrados de área de exposição, mais de 120 expositores internacionais e mais de 60 oficinas (sendo que mais de 50 delas focam especificamente nessas técnicas), com ingressos esgotando semanas antes do evento.
De fato, os ingressos se esgotaram em apenas três dias, demonstrando a grande expectativa em torno do evento.
Essa tendência é impulsionada pelo apelo dos produtos feitos à mão, pela sustentabilidade e pelo valor terapêutico do artesanato. As redes sociais e plataformas como Pinterest e TikTok também desempenham um papel fundamental na divulgação de ideias e tutoriais.
Já surgiu uma comunidade de influenciadores e criadores de conteúdo dedicados ao tema — nomes como mindfulmantra_embroidery, Yolanda Andrés, Sarah K. Benning e a altamente original Cristina Chanche, que acumulam milhões de seguidores.
Uma tendência em ascensão
O valor do mercado global de artesanato comprova esse ressurgimento. Um estudo da The Business Research Company indica que o mercado está avaliado atualmente em US$ 47,35 bilhões (cerca de R$ 243,7 bilhões), um número que pode ultrapassar US$ 67 bilhões (cerca de R$ 344,9 bilhões) até 2030.
O Etsy serve como outro bom termômetro do interesse por esses temas, dada a sua posição como um importante centro de compra e venda de produtos artesanais. Em 2022, a plataforma registrou vendas brutas de US$ 11,8 bilhões (cerca de R$ 60,7 bilhões), com 94 milhões de compradores e 7,3 milhões de vendedores. Além disso, a plataforma vem introduzindo novas ferramentas de venda e personalização para acompanhar a crescente demanda.
Em 2020 — o ano da pandemia —, o jornal The Guardian registrou um aumento de 140% no número de pessoas que começaram a praticar crochê, totalizando um milhão de indivíduos no Reino Unido. Olhando para o futuro, um relatório da Technavio estima que o mercado global de tricô e crochê crescerá US$ 10,69 bilhões (cerca de R$ 55 bilhões) entre 2024 e 2028.
Benefícios psicológicos
Há muitas razões por trás do ressurgimento dessas tendências, mas um fator predominante é a busca por uma autenticidade que parece ter se perdido nos tempos modernos.
Artigos como este, publicado no The Wall Street Journal, classificam a tendência como "granny core" (uma referência ao fato de serem hobbies tradicionalmente associados às avós) e trazem comentários de jovens na casa dos vinte anos, que apontam a desconexão digital e o prazer de confeccionar itens manualmente como os principais motores desse renascimento.
Em contraste com a uniformidade dos produtos fabricados em massa, os itens feitos à mão representam autenticidade e exclusividade, uma vez que cada peça envolve um processo de criação único. Essas atividades exigem pouco investimento financeiro, mas permitem experimentação, aprendizado e desenvolvimento de habilidades, aumentando assim a autoestima e a sensação de autossuficiência.
Estudos médicos recentes destacam os benefícios significativos da prática de artesanato e atividades manuais, chegando a descrevê-los como uma ferramenta acessível e de baixo custo para a saúde pública.
Todos os estados de paz mental mencionados anteriormente se enquadram em uma categoria comum: a desconexão digital. Em uma vida saturada de telas e estímulos digitais, o artesanato oferece uma maneira de se desconectar e reduzir o estresse.
Estudos médicos — como este realizado pelo San Diego Mental Health Center — listam os benefícios dessa desconexão e apontam que "hobbies criativos, como pintura ou artesanato", são passatempos analógicos que vale a pena cultivar.
Atividades como bordado, pintura em cerâmica ou tricô estimulam a criatividade e a concentração (indo na contramão dos efeitos das redes sociais) e geram uma sensação de realização e propósito, contribuindo para uma maior satisfação pessoal e bem-estar emocional.
Um retorno ao passado
Um elemento fundamental do artesanato é a conexão com o nosso passado — uma forma de transmissão intergeracional que havia se perdido na era digital. Aprender essas técnicas permite que jovens adultos na casa dos vinte anos se conectem com suas raízes familiares e culturais.
Isso envolve algo muito mais profundo do que a simples aquisição de habilidades técnicas: implica compartilhar tempo e experiências com familiares mais velhos, criar memórias e fortalecer a identidade da família. Eventos como o European Artistic Crafts Days — realizadas sob o tema "The Golden Thread" ("O Fio de Ouro") — destacam precisamente como o artesanato atua como um fio invisível que une o passado e o presente.
Na indústria da moda — tantas vezes definida pelo consumo acelerado e pela redução de custos —, o ressurgimento do bordado e do crochê representa uma mudança (com suas óbvias implicações comerciais) em direção ao artesanal e ao sustentável, qualidades muito valorizadas por segmentos específicos de consumidores.
As técnicas manuais estão na vanguarda do movimento slow fashion, que promove o consumo ético e consciente de vestuário; entre seus adeptos estão grandes nomes da indústria, como Dior, Valentino, Batsheva Hay e Ganni.
Foto de Anya Chernik no Unsplash
Mas e quanto às pessoas?
As pessoas tanto consomem moda quanto a influenciam; portanto, não surpreende que o público em geral também tenha adotado o crochê e o bordado. Pouco importa se quem veio primeiro nessa retomada das tradições de trabalhos manuais foi a galinha (os consumidores) ou o ovo (a indústria).
No entanto, podemos identificar um momento-chave em que essa prática voltou a ficar em alta para o cidadão comum: a pandemia e os consequentes períodos de confinamento.
As restrições de mobilidade, a necessidade de aprender novas habilidades e hobbies, a busca por atividades relaxantes e a importância crescente das redes sociais e comunidades online na criação e no fortalecimento de amizades fizeram o restante.
A pandemia também impulsionou o ressurgimento de negócios caseiros de venda de roupas feitas à mão. Milhares de pessoas decidiram empreender, utilizando plataformas como a Etsy — sem dúvida a mais difundida —, além de redes sociais (Instagram), marketplaces de artigos de segunda mão (Wallapop ou Vinted) e ferramentas simples para criar lojas online básicas, como a Shopify.
As oscilações no mercado de trabalho tradicional alimentaram esse ressurgimento do trabalho autônomo no setor artesanal, o que, por sua vez, impactou a indústria: o valor do artesanato e da moda de designers independentes aumentou, as tendências de consumo mudaram e — acima de tudo — a percepção do consumidor se transformou, tornando-se mais receptiva à moda feita à mão.
Imagem de capa | Pxhere
Ver 0 Comentários