Os polvos são animais invertebrados, mas a ausência de um sistema nervoso central como o de aves ou mamíferos não torna seus cérebros menos interessantes que o restante. Cérebros, reforçando o plural, já que os sistemas neurais de cada uma de suas extremidades contam com certo grau de independência, o que leva muitos a considerá-los como tais.
Em janeiro de 2025, um grupo de pesquisadores estudou os sistemas nervosos desses cefalópodes para compreender melhor como esses nove órgãos neurais operam em conjunto e até que ponto mantêm sua independência. O que observaram foi que cada um desses cérebros tinha a capacidade de operar de forma individual.
A equipe responsável pelo estudo acredita que é por causa dessa segmentação do sistema nervoso que os polvos conseguem alcançar tamanho nível de destreza no uso desses órgãos — que servem para se locomover, se alimentar, sentir o ambiente ao redor e até copular. Os detalhes do trabalho podem ser consultados no artigo publicado na revista Nature Communications.
“Se você vai ter um sistema nervoso que controla um movimento tão dinâmico, essa é uma boa forma de organizá-lo”, explicou em comunicado Clifton Ragsdale, coautor do estudo. “Acreditamos que essa é uma característica que evoluiu especificamente nos cefalópodes de corpo mole com ventosas para realizar esses movimentos próprios dos vermes”.
Estudando a segmentação
O estudo se concentrou na segmentação desse curioso sistema neural, analisando a distribuição e a função dos neurônios desses braços, tomando como referência um polvo da espécie Octopus bimaculatus. Neurônios que, em conjunto, somam um número maior do que o de neurônios localizados no “cérebro central” do animal, responsável por coordenar as ações que exigem o uso de vários braços.
Esses neurônios das extremidades se concentram, explica a equipe, em um cordão nervoso axial (ANC), que “serpenteia” pela extremidade até cada uma das ventosas do animal.
A análise do ANC mostrou que os neurônios nas extremidades dos polvos se agrupam em “colunas” que, por sua vez, formam segmentos comparáveis a tubulações corrugadas. Esses segmentos são separados por espaços chamados “septa”, a partir dos quais nervos e vasos sanguíneos avançam em direção aos músculos da extremidade.
“Do ponto de vista de modelagem, a melhor maneira de organizar um sistema de controle para esse braço tão longo e flexível seria dividi-lo em segmentos”, acrescenta Cassady Olson, coautora do estudo. “Deve haver algum tipo de comunicação entre os segmentos, o que você pode imaginar que atenua seus movimentos”.
Um estudo posterior conjunto entre a Florida Atlantic University e o Marine Biological Laboratory analisou 4.000 movimentos de braços, capturados em vídeo, de três espécies distintas, e chegou a uma conclusão surpreendente: embora todos os braços possam realizar qualquer movimento, os braços dianteiros são usados para exploração, enquanto os traseiros são empregados em tudo o que tem a ver com locomoção.
Imagem | Theasereje, CC BY-SA 4.0
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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