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Tem 315.000 anos e “passaria despercebido na multidão”: foi reconstruído em 3D o rosto do Homo sapiens mais antigo do mundo

  • Uma equipe internacional, com uma contribuição italiana significativa, reconstruiu o crânio de Jebel Irhoud, descoberto no Marrocos em 1961;

  • Há mais de 300 mil anos, nosso ancestral apresentava características robustas, mas possuía um volume cerebral praticamente idêntico ao dos seres humanos modernos

Tem 315.000 anos e “passaria despercebido na multidão”: foi reconstruído em 3D o rosto do Homo sapiens mais antigo do mundo
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Fabrício Mainenti

Redator

Imagine-o vestido com roupas modernas, caminhando por uma rua em qualquer metrópole contemporânea. A um olhar casual, ele passaria completamente despercebido. Somente com uma observação mais atenta seria possível notar seus traços incomumente robustos: arcadas superciliares proeminentes, nariz largo e uma mandíbula levemente projetada para a frente.

No entanto, este homem não pertence ao nosso século; ele viveu no Norte da África há aproximadamente 315 mil anos e é, para todos os efeitos, o representante mais antigo conhecido do Homo sapiens.

Hoje, o rosto desse ancestral muito distante foi revelado graças a uma impressionante reconstrução digital em 3D — publicada na revista científica Heritage — criada por uma equipe internacional com uma contribuição italiana significativa.

O Homo sapiens de Jebel Irhoud: a história de um crânio que quebrou recordes

A história desse rosto extraordinário começa em 1961, no sítio de mineração de Jebel Irhoud, no oeste do Marrocos, quando um trabalhador encontrou um crânio fossilizado. Durante décadas, a comunidade científica acreditou tratar-se de um "Neandertal africano" que teria vivido há cerca de 40 mil anos.

A grande revelação, que reescreveria os livros sobre a história evolutiva, surgiu em 2017: novas escavações e métodos avançados de datação — publicados na revista Nature — não apenas identificaram os vestígios como pertencentes ao Homo sapiens, mas também recuaram sua idade para aproximadamente 315 mil anos atrás (com uma margem de erro de 34 mil anos).

Essa descoberta antecipou o surgimento documentado de nossa espécie em mais de 100 mil anos, provando que os sapiens habitavam a África muito antes do que se pensava — utilizando ferramentas de pedra, dominando o fogo e caçando gazelas e zebras. 

Reconstrução facial 3D: o método ítalo-brasileiro

Uma equipe multidisciplinar, liderada pelo renomado designer brasileiro e especialista em reconstrução forense Cícero Moraes, assumiu a tarefa de dar forma à história. Trabalhando ao seu lado — desempenhando um papel fundamental na conceituação e na validação científica — esteve o professor Francesco Maria Galassi, anatomista do Departamento de Saúde Pública, Medicina Experimental e Forense da Universidade de Pavia.

A equipe também contou com especialistas da Universidade Flinders, da Austrália, e utilizou metodologias anteriormente aplicadas a espécimes de hominídeos em exposição no Museu da Natureza e da Humanidade, em Pádua.

O processo, que recorre a softwares de código aberto, começou com a fotogrametria para criar um modelo tridimensional preciso do crânio — originalmente escaneado pelo Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig.

Para modelar os tecidos moles, os pesquisadores "deformaram" digitalmente uma tomografia computadorizada de um adulto moderno, adaptando-a à anatomia do crânio antigo; em seguida, calibraram a espessura dos músculos e da pele com base em dados biométricos de populações africanas contemporâneas.

Evolução cerebral e o surgimento dos seres humanos modernos

Os pesquisadores produziram duas versões do rosto: uma em tons de cinza, para destacar a anatomia muscular e esquelética subjacente, e um busto colorido, apresentando pele escura, cabelo e barba.

"Essas são características plausíveis para um indivíduo que viveu no Norte da África há 315 mil anos", explicam os especialistas, ressaltando que, embora o crânio não forneça dados de DNA para determinar a cor exata da pele ou dos olhos, tais características são consistentes com o contexto.

No entanto, a descoberta mais surpreendente do estudo diz respeito ao volume craniano. A equipe calculou um volume cerebral de 1.230 centímetros cúbicos — um valor notavelmente próximo à média observada em homens adultos modernos (1.234 cm³).

Isso oferece uma evidência clara de que, ao longo de mais de 300 mil anos, o tamanho do nosso cérebro permaneceu praticamente inalterado, e que o rosto humano adquiriu sua forma "moderna" mesmo antes de a evolução interna do cérebro estar totalmente concluída.

"É sempre uma experiência fantástica ver o rosto totalmente reconstruído e observar tanto as semelhanças quanto as diferenças em relação à população atual", comentou o professor Galassi. "É impossível não se perguntar como era o cotidiano dessas pessoas, como resolviam problemas e o que passava por suas mentes."


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