Uma dependência silenciosa que durou anos está chegando ao fim de forma drástica. O governo dos Estados Unidos anunciou o banimento de códigos escritos na China, ou por empresas de propriedade chinesa, em veículos conectados à internet que circulam em solo americano. A medida, que entra em vigor em 17 de março de 2026, obriga as montadoras a certificarem que seus sistemas — desde controles de entretenimento e câmeras de bordo até assistentes de direção — estão livres de qualquer rastro digital chinês.
O objetivo da nova regulamentação, emitida pelo Escritório de Indústria e Segurança do Departamento de Comércio, é mitigar riscos de segurança nacional. A preocupação é que microfones, módulos GPS e câmeras possam ser explorados para enviar dados sensíveis para o exterior. Até 2029, as restrições serão estendidas também ao hardware de conectividade.
O desafio técnico de separar o código
A indústria automotiva descreve essa regra como uma das mais complexas das últimas décadas. O maior obstáculo não é apenas encontrar o software, mas auditá-lo dentro de uma cadeia de suprimentos global altamente fragmentada.
Muitos fornecedores chineses consideram o código-fonte como propriedade intelectual proprietária e se recusam a compartilhá-lo com as montadoras para auditoria.
Softwares automotivos são feitos sob medida. Remover uma linha de código chinês não é como trocar uma peça física; pode comprometer todo o funcionamento do veículo.
No primeiro semestre de 2025, empresas chinesas controlavam 87% do mercado global de módulos celulares (dispositivos que conectam o carro à rede), um aumento significativo em relação aos 69% registrados em 2019.
Empresas de outros países sofrem com medida
Para evitar o colapso imediato, o governo americano permitiu uma exceção: o software pode continuar em uso se sua propriedade for transferida para uma entidade não chinesa antes do prazo de 17 de março. Isso gerou uma onda de reestruturações globais. Empresas estão realocando equipes de engenharia para fora da China ou vendendo divisões inteiras para clientes ocidentais.
A fabricante italiana de pneus Pirelli é um exemplo notório. Seus "pneus inteligentes", que se conectam à nuvem, caíram sob a nova regra devido à participação de 34% da estatal chinesa Sinochem na empresa.
O governo italiano e a Pirelli agora negociam formas de isolar as operações americanas ou reduzir a participação chinesa para cumprir as exigências dos EUA.
Oportunidades para o mercado interno
O banimento abriu espaço para startups americanas que tentam preencher o vácuo deixado pelos gigantes chineses. A Eagle Wireless, sediada em Ohio, está criando uma linha de produção doméstica de módulos celulares.
Embora seus produtos custem cerca de 10% a mais do que as versões fabricadas na China, a empresa aposta na necessidade das montadoras de garantir a independência digital.
Analistas comparam a dependência de módulos celulares chineses à dependência de minerais de terras raras.
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