A SpaceX acaba de comprar a xAI. No papel, pode parecer apenas mais uma fusão no império de Musk. Mas, juntando tudo, dá para ver que é outra coisa.
- A SpaceX lança satélites militares confidenciais e tem contratos bilionários com o Pentágono.
- A xAI tem o Grok dentro do Departamento de Defesa há duas semanas, processando dados que passam por bases militares.
- O X é onde se disputam as narrativas que movem eleições e conflitos.
- A Starlink fornece conectividade em zonas de conflito como a Ucrânia, decidindo de fato quais áreas da frente têm conexão e quais não.
Tudo isso agora opera sob o mesmo teto. E não é um conglomerado comum. Se parece mais com o que, em outros séculos, foram as Companhias das Índias: entidades privadas, mas com capacidades quase soberanas. Aquelas tinham exércitos; Musk tem foguetes, infraestrutura de telecomunicações que opera em nível global, controle de fluxos informativos e de debates públicos, e acesso à inteligência militar.
A diferença é que os impérios podiam dissolver essas companhias quando elas se tornavam problemáticas. Aqui é o contrário. O Ocidente terceirizou tantas coisas sensíveis — desde lançamentos espaciais até conectividade em conflitos, passando por satélites e processamento de inteligência — que impor limites a Musk é dar um tiro no próprio pé.
Como você vai regular o sujeito que lança seus satélites espiões, mantém você conectado em guerra e processa seus dados classificados?
Cada passo individual nunca levantou suspeitas porque sempre fez sentido:
- A SpaceX era mais barata que a Boeing ou a Lockheed.
- A Starlink resolveu problemas onde os cabos não chegam.
- Colocar IA em dados militares era questão de tempo.
Mas ninguém desenhou isso como um sistema. Foi acontecendo sozinho, contrato após contrato. E agora você tem um ator privado com mais capacidade operacional em certos domínios do que alguns países.
Não é um monopólio que você possa fatiar. É infraestrutura crítica concentrada em alguém que, além disso, controla megafones midiáticos, tem capital político direto e opera no limbo regulatório do espaço. Separar isso tem muito mais a ver com geopolítica do que com telecomunicações ou concorrência. Que governo vai se atrever a encher o saco de quem controla suas comunicações militares?
A fusão com a xAI apenas torna visível o que já existia. Musk não precisava unir formalmente as empresas porque elas já compartilhavam dados, engenheiros e infraestrutura. Colocar isso no papel é admitir publicamente o que operava nas sombras: um conglomerado com alcance estratégico que vai além do que as democracias liberais projetaram como possível para um ator privado.
O Ocidente caiu nessa armadilha sozinho. Não se pode apontar o dedo para um presidente chinês nem transferir a responsabilidade para uma ameaça externa. Queria inovação rápida mantendo os custos baixos, então entregou capacidades sensíveis a alguém que agora é grande demais para ser mexido sem que haja prejuízo a si próprio.
Os incentivos faziam sentido no começo. Já não está claro se continuam fazendo. Mas não importa. O ponto de não retorno foi ultrapassado há muito tempo.
Imagem | SpaceX
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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