Fim de uma era: a China resolve acabar com a “diplomacia do panda” e recolhe os animais

Após fim de empréstimo, zoológico de Tóquio devolve seus dois exemplares

Pandas / Imagem: Xataka
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin é jornalista.

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O Japão ficou sem pandas pela primeira vez em mais de cinco décadas. A partida dos gêmeos Xiao Xiao e Lei Lei do zoológico de Ueno, em Tóquio, rumo à China, não marca apenas o fim de uma era para os visitantes japoneses, mas também reflete a deterioração das relações entre as duas maiores economias da Ásia. As imagens de multidões se despedindo com lágrimas nos olhos mostram que, para além da política, os pandas fizeram parte do coração cultural do Japão.

A notícia se insere em um contexto mais amplo: a chamada “diplomacia do panda”, uma prática que a China utilizou por décadas para estreitar laços com outros países. No entanto, em tempos de tensões crescentes, a devolução desses animais é interpretada como um lembrete de que os pandas não são apenas embaixadores de boa vontade, mas também peças dentro de um tabuleiro geopolítico.

A diplomacia do panda: um símbolo com história

A estratégia de enviar pandas ao exterior começou no século 20 como um gesto de amizade e cooperação. Durante décadas, a China presenteou países aliados com exemplares, mas, desde 1984, mudou sua política e passou a estabelecer empréstimos de longo prazo, com condições específicas de conservação e reprodução.

O México é um exemplo emblemático dessa prática: em 1975, recebeu Pe Pe e Ying Ying como presente de Mao Zedong, o que permitiu que o Zoológico de Chapultepec se tornasse o primeiro centro fora da China a conseguir a reprodução bem-sucedida de pandas. Dessa linhagem nasceu Xin Xin, que hoje é a única panda no mundo que não pertence à China e que completou 35 anos em 2025, um recorde de longevidade fora de seu país de origem.

Panda

O Japão se despede de seus últimos pandas

Os gêmeos Xiao Xiao e Lei Lei nasceram em Tóquio em 2021, mas, pelas regras da diplomacia do panda, sua propriedade sempre pertenceu à China. Após um último encontro com seus admiradores, foram enviados para Sichuan, onde permanecerão em quarentena no Centro de Conservação e Pesquisa do Panda-Gigante.

Os pandas gigantes gêmeos, Xiao Xiao (direita) e Lei Lei, 103 dias depois de seu nascimento no zoológico de Ueno em Tóquio | Imagem: AP Os pandas gigantes gêmeos, Xiao Xiao (direita) e Lei Lei, 103 dias depois de seu nascimento no zoológico de Ueno em Tóquio | Imagem: AP

Sua partida deixa o Japão sem pandas pela primeira vez em mais de meio século. A ausência é sentida especialmente no zoológico de Ueno, que, durante anos, foi um ponto de encontro para famílias e turistas. As autoridades japonesas esperam manter as instalações prontas para futuros acordos de cooperação, com a esperança de que, um dia, os pandas retornem.

A devolução dos pandas ocorre em um momento delicado para as relações bilaterais. Declarações recentes da primeira-ministra japonesa sobre um possível cenário de conflito em Taiwan provocaram a resposta de Pequim, que reduziu voos, desestimulou o turismo para o Japão e suspendeu importações-chave como frutos do mar e terras raras.

Último dia de exibição pública de Lei Lei antes de sua volta para a China | Imagem: Tomohiro Ohsumi/Getty Images Último dia de exibição pública de Lei Lei antes de sua volta para a China | Imagem: Tomohiro Ohsumi/Getty Images

Embora a China costume retirar pandas de países estrangeiros de forma rotineira, a coincidência com esse clima político gerou especulações sobre um pano de fundo diplomático. Para muitos, a saída de Xiao Xiao e Lei Lei simboliza não apenas um ajuste na política de conservação, mas também um reflexo da tensão crescente entre os dois governos.

Por enquanto, o zoológico de Ueno mantém seu compromisso de colaborar com a China em pesquisa e conservação, mas a ausência de pandas deixa um vazio difícil de preencher. No México, onde Xin Xin é um símbolo de amizade e cooperação, a notícia desperta questionamentos sobre o futuro desses acordos e a possibilidade de que as tensões internacionais também afetem outros países com pandas em empréstimo.

A diplomacia do panda foi, durante décadas, uma ponte entre culturas e governos. Hoje, com o Japão sem pandas pela primeira vez em gerações, fica claro que esses animais são (infelizmente) muito mais do que ícones de ternura: são peças vivas da política internacional.

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka México.


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