Salvar a camada de ozônio teve um preço: uma chuva química invisível agora cai sobre todo o planeta

Quando a solução se torna um problema

Planeta Terra | Fonte: Unsplash/NASA
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Vika Rosa

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Vika Rosa

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Jornalista com mais de 5 anos de experiência, cobrindo os mais diversos temas. Apaixonada por ciência, tecnologia e games.


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As substâncias químicas introduzidas para proteger a camada de ozônio estão provocando uma consequência ambiental inesperada e preocupante. Um estudo liderado pela Universidade de Lancaster, publicado no periódico Geophysical Research Letters em fevereiro de 2026, revela que os substitutos dos antigos CFCs são agora a principal fonte global de um poluente persistente: o ácido trifluoroacético (TFA).

Essa substância, que se infiltra na água, no solo e até no gelo de regiões remotas como o Ártico, é conhecida como um "químico eterno". Isso ocorre porque o TFA resiste à decomposição natural, permanecendo no meio ambiente por períodos extremamente longos após ser depositado pela chuva ou pelo ar.

O acúmulo invisível de décadas

A pesquisa estima que, entre os anos 2000 e 2022, aproximadamente 335.500 toneladas de TFA foram depositadas na superfície da Terra. Esse poluente é resultado da decomposição de gases usados em sistemas de refrigeração e também de certos anestésicos inalatórios.

Mesmo com os esforços internacionais para reduzir o uso desses gases, a poluição continua a aumentar. O problema reside na longa vida útil desses componentes, que permanecem na atmosfera por décadas antes de se transformarem no ácido que chega ao solo. Os cientistas preveem que o pico dessa produção anual de poluentes pode ocorrer em qualquer momento entre agora e o ano 2100.

Riscos para a saúde e o ecossistema

Embora os níveis atuais em algumas regiões ainda sejam considerados abaixo dos limites de danos imediatos por certos órgãos reguladores, a trajetória de acúmulo é irreversível e gera alertas em diversas frentes:

  • A Agência Europeia de Produtos Químicos já considera o composto prejudicial à vida aquática.
  • Estudos detectaram a presença da substância no sangue e na urina de seres humanos.
  • Autoridades alemãs propuseram classificar o poluente como potencialmente tóxico para a reprodução humana.

A descoberta em núcleos de gelo no Ártico é a prova mais contundente do alcance global do problema. Mesmo longe das áreas industriais, quase todo o ácido detectado naquelas geleiras tem origem nos gases substitutos dos CFCs, transportados pelas correntes atmosféricas por milhares de quilômetros.

Monitoramento se faz necessário

A classe mais recente de refrigerantes, os HFOs, comercializada como uma alternativa ecológica, também é uma fonte crescente de TFA, especialmente devido ao uso em aparelhos de ar-condicionado automotivos. 

Essa nova fonte adiciona uma camada de incerteza sobre os níveis futuros de poluição química no planeta.

Os pesquisadores enfatizam a necessidade urgente de um monitoramento internacional mais rigoroso. O caso destaca que, ao substituir uma substância nociva por outra, é fundamental considerar os riscos de longo prazo para evitar que a solução de um problema ambiental se torne a semente de um novo desastre ecológico.

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