Durante os anos 1960, em pleno auge da Guerra Fria, EUA e União Soviética acumulavam armas nucleares sem limites claros, presos em uma lógica de desconfiança absoluta marcada por crises como a dos mísseis em Cuba e pela certeza de que um erro de cálculo poderia desencadear uma catástrofe global. Foi nesse ambiente de medo que começaram a perceber que continuar somando ogivas não tornava o mundo mais seguro, lançando assim as bases do primeiro grande acordo de controle nuclear.
Hoje, estamos a um dia de encerrar esse pacto.
O fim do controle nuclear
Nesta quinta-feira (5/2), expira o New START, o último tratado que limitava legalmente os arsenais nucleares implantados de Estados Unidos e Rússia, colocando fim a mais de cinquenta anos de acordos, inspeções e mecanismos de transparência que haviam reduzido drasticamente o número de ogivas desde o pico da Guerra Fria.
O acordo, assinado em 2010 e prorrogado em 2021, estabelecia um teto de 1.550 ogivas estratégicas por país e permitia a troca de dados e inspeções in loco, projetadas para evitar mal-entendidos perigosos. Seu desaparecimento não elimina apenas os limites formais, mas também o sistema de verificação que dava verdadeiro valor ao tratado, em um contexto marcado pela guerra na Ucrânia, pela suspensão unilateral russa das inspeções e por um clima de desconfiança que não se via há décadas.
O mais chamativo no fim do New START é a escassa reação política em Washington, onde o debate tem sido mínimo, apesar de o mundo estar entrando em uma era sem restrições nucleares pela primeira vez desde os anos 1960. A administração Trump deixou o tratado morrer sem uma posição clara, enquanto, dentro do aparato de segurança, cresce a pressão para aumentar o número de armas nucleares em vez de reduzi-las.
Esse vazio contrasta com os alertas de especialistas e com o simbolismo do Relógio do Juízo Final, que foi notícia nos últimos dias por ter se aproximado mais do que nunca da meia-noite, um reflexo do temor de uma corrida armamentista descontrolada que poderia envolver não apenas Rússia e Estados Unidos, mas também a China.
Rússia, China e um dilema
Se fizermos um exercício de futurologia, a partir de quinta-feira, os EUA poderiam, por exemplo, voltar a “carregar” múltiplas ogivas em mísseis que hoje levam apenas uma, uma prática abandonada para cumprir o New START, enquanto a Rússia conserva a capacidade de fazê-lo rapidamente porque nunca deixou de implantar mísseis com múltiplas cabeças.
Nesse ponto, muitos analistas alertam que Moscou poderia reagir com mais rapidez do que Washington em um cenário de escalada, enquanto Pequim continua ampliando seu arsenal em um ritmo não visto desde a Guerra Fria, embora ainda longe dos números das duas superpotências que iniciaram tudo. A combinação de desconfiança, novas armas não cobertas por acordos anteriores e sistemas emergentes como drones nucleares submarinos ou mísseis exóticos agrava a sensação de que estamos entrando em um terreno estratégico desconhecido.
Uma oportunidade que se fecha
Apesar de tudo, ainda existe uma pequena janela para evitar o pior cenário, já que a Rússia sinalizou que poderia continuar respeitando voluntariamente os limites. Além disso, antigos negociadores defendem que aceitar uma prorrogação temporária com inspeções restauradas seria um gesto pragmático e barato para ganhar tempo.
Para além da parte técnica, o colapso do New START simboliza algo mais profundo: a erosão da ideia de que a estabilidade nuclear é melhor gerida com regras, comunicação e transparência do que com acumulação de armas. Se este momento marca apenas um tropeço ou o início de uma nova normalidade, dependerá de decisões políticas imediatas, embora o consenso entre especialistas seja claro: sem algum tipo de controle, o mundo entra em uma fase mais perigosa, mais inquietante e, evidentemente, com menos margem para o erro.
Imagem | Steve Jurvetson
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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