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Abadia alemã produzia uma das cervejas mais antigas do mundo desde 1050, mas ela teve que ser vendida

Cerveja da Abadia de Weltenburg remonta a 1050, o que a torna um símbolo

Gestores chegaram a acordo com outra empresa alemã em contexto difícil para o setor

Imagens | Bernt Rostad (Flickr) 1 e 2 e Frank Mago (Flickr)
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PH Mota

Redator
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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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A Alemanha é o berço da Oktoberfest, da cerveja lager, de Santa Hildegarda de Bingen e de centenas de cervejarias artesanais. No entanto, o refrescante líquido âmbar não vive seu melhor momento por lá. Com o desinteresse dos jovens pela bebida e a queda no consumo per capita de cerveja no país, a Alemanha se depara com notícias como a que abalou o setor no início de 2026: a cervejaria monástica mais antiga do mundo, um ícone de 976 anos, acaba de ser vendida, sufocada pelo contexto econômico.

Parece uma venda simples, mas diz muito sobre a indústria.

O que aconteceu?

A Alemanha se prepara para uma dessas transações comerciais que, devido ao seu enorme valor simbólico, transcendem as páginas da imprensa tradicional para falar sobre as mudanças culturais e sociais de um país. A cervejaria bávara Schneider Weisse acaba de fechar um acordo para adquirir as marcas Bischofshof e Weltenburger, ligadas à Bischofshof GmbH & Co.

Dito assim, pode parecer um procedimento comercial simples, mas o acordo implica que a Schneider Weisse assume o controle da cervejaria da abadia de Weltenburg, e isso é algo fora do comum. O motivo? A história cervejeira do mosteiro remonta a 1050, tornando-o considerado a cervejaria de abadia mais antiga, embora, se falarmos de cerveja em geral, haja uma anterior em Weihenstephan (Freising), produzida desde 1040.

Cerveja

O que foi acordado?

A verdade é que poucos detalhes foram divulgados. Por exemplo, as empresas não quiseram revelar o valor da operação. O que foi divulgado é que o acordo entrará em vigor em janeiro de 2027 e que a Scheneider Weisse continuará a operar a cervejaria na Abadia de Weltenburg.

Não só isso. Ela também assumirá a parte logística do Bischofshof, que inclui 21 funcionários. Parte da empresa, localizada em Regensburg, será fechada no final deste ano, e a ideia é que, a médio prazo, a produção das diferentes marcas seja concentrada na sede que a Schneider Weisse já possui em Kelheim e na Abadia de Weltenburg.

São empresas importantes?

No mínimo, são empresas com tradição. Embora a cerveja da Abadia de Weltenburg se destaque no cenário mundial por sua longa história, que remonta a 1050, na realidade, as três empresas envolvidas no acordo possuem uma longa tradição. A cervejaria Bischofshof foi fundada em meados do século XVII em Regensburg e é responsável pela produção em Weltenburg desde 1973. Já a Schneider Weisse, sediada em Kelheim, também foi inaugurada há mais de um século e meio, em 1872.

"Nosso objetivo é criar um portfólio de marcas tradicionais. Combinamos nossa tradição cervejeira de mais de 150 anos com os quase 380 anos de história da marca Bischofshof e a tradição cervejeira da cervejaria monástica mais antiga do mundo, que remonta a 1050", celebra Georg Schneider, CEO da Schneider Weisse. "Isso cria uma gama de cervejas impregnadas de história e tradição, uma oferta única de um único fornecedor em todo o mundo."

Por que isso é importante?

Weltenburg é relevante o suficiente para que qualquer operação que a afete gere interesse, mas se esta operação despertou expectativa (mesmo fora da Alemanha) é por causa do seu contexto.

As empresas reconhecem que a manobra visa adaptar-se à "persistente fragilidade" do mercado cervejeiro alemão. "A realidade é que, por conta própria e apesar de todos os nossos esforços e das medidas tomadas nos últimos meses, não era mais economicamente viável continuar operando as marcas", afirma Till Hedrich, diretor-geral da empresa Bischofshof e Weltenburger. "A evolução do mercado nos afetou demais."

Hedrich também defendeu que a operação com a Schneider, empresa sediada em Kelheim (Baviera), é a mais vantajosa para a tradicional vinícola de Abadia. "A ameaça iminente de um fechamento total ou desmantelamento por um investidor sem qualquer ligação com a região ou sua história pode ser evitada com a 'solução bávara' que está sendo implementada com a Schneider Weisse."

O mercado mudou tanto assim?

Aparentemente, sim. O próprio grupo fala de uma "queda drástica nas vendas" das cervejarias alemãs no país. O programa BR24 lembra que, somente nos últimos dez anos, a indústria cervejeira alemã perdeu quase 14 milhões de hectolitros, quase 14% de suas vendas.

Embora o panorama completo seja um pouco mais complexo (os dados mais recentes do setor bávaro não são ruins), a tendência geral está longe do ideal para a indústria local. Se no início da década de 80 o consumo per capita no país girava em torno de 145,9 litros de cerveja, atualmente está abaixo de 90.

Há mais dados?

Sim. Há dois anos, o jornalista berlinense Nicholas Potter publicou um dado interessante no The Guardian: "O declínio pode ser visto na própria Oktoberfest. Em 2019, 6,3 milhões de visitantes consumiram 7,3 milhões de litros. No ano passado, a frequência foi de cerca de 7,2 milhões de pessoas, um número recorde, mas o consumo foi de apenas 6,5 milhões de litros." Como pano de fundo, temos a queda no consumo, o aumento na produção de cerveja sem álcool e a perda de interesse da geração Z por cerveja ou vinho.

Em abril, a rede Deursche Welle forneceu mais um dado que completa o quadro. Não se trata apenas de uma queda no consumo de cerveja alemã no próprio país, mas também de um declínio nas vendas externas, que não acompanharam o desempenho desejado pela indústria. Segundo dados do Destatis, em 2024 foram exportados 1,45 bilhão de litros de cerveja alemã, um volume significativamente inferior aos 1,54 bilhão de litros exportados em 2014.

Imagens | Bernt Rostad (Flickr) 1 e 2 e Frank Mago (Flickr)

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