A plataforma de streaming e venda de música Bandcamp anunciou que proibirá totalmente músicas geradas “em sua totalidade ou em parte substancial” por meio de inteligência artificial, tornando-se o primeiro serviço importante de distribuição musical a estabelecer uma barreira tão restritiva contra conteúdo sintético. Assim, o Bandcamp se posiciona com firmeza no debate sobre onde termina o uso de ferramentas criativas e onde começa a automação total que dispensa a autoria humana.
O comunicado do Bandcamp apresenta duas proibições fundamentais. Por um lado, qualquer conteúdo musical gerado completamente ou de forma substancial por meio de inteligência artificial — uma redação que evita definir porcentagens exatas, mas que estabelece que existe um limite para o peso da IA no processo criativo. Por outro, estende a proibição ao uso de ferramentas algorítmicas para replicar estilos ou vozes de artistas reais, conectando essa restrição às políticas já existentes da plataforma contra a falsificação de identidade e a violação de propriedade intelectual.
O anúncio inclui um mecanismo de denúncia para os usuários: eles podem reportar material suspeito por meio das ferramentas de denúncia da plataforma, que serão analisadas por uma equipe de moderação. A empresa se reserva explicitamente o direito de remover músicas sob suspeita de terem origem sintética, sem a necessidade de provas conclusivas, uma cláusula que concede ampla liberdade aos moderadores, mas que também pode gerar falsos positivos. A empresa reconheceu que a política pode exigir atualizações conforme evolua o panorama da IA generativa, em referência à rapidez com que essas tecnologias se desenvolvem.
O debate conceitual
Essa decisão se insere no debate sobre IA que atravessa o mundo da cultura: os algoritmos são responsáveis pelo ato criativo ou são apenas um instrumento? O Escritório de Direitos Autorais dos Estados Unidos estabeleceu em janeiro de 2025 que trabalhos gerados por IA podem ser registrados quando “incorporam autoria humana significativa”, mas que conteúdos produzidos unicamente por meio de prompts, sem intervenção criativa adicional, caem em domínio público por carecerem de um autor reconhecível.
Só que é difícil determinar quando se trata de uma coisa ou de outra. O espectro vai desde músicos que usam a IA para limpar áudios ou se inspirar com melodias até aqueles que simplesmente escrevem instruções em texto e deixam o modelo gerar faixas completas. Há artistas conceituais que vão ao extremo oposto da intervenção artificial: a compositora Holly Herndon transformou sua voz, no projeto Holly+, em um “instrumento digital” de acesso público que outros músicos podem tocar.
O debate é interminável: a MIT Technology Review reportou em abril que ferramentas como Suno e Udio produzem “criadores” que não são músicos convencionais, mas “prompters”. O resultado são obras que não podem ser atribuídas a um compositor ou cantor, dissolvendo as definições habituais de autoria.
A inundação
Os números revelam uma escalada exponencial do surgimento de músicas criadas por IA nas plataformas. A Deezer reportou, em novembro de 2025, ter mais de 50.000 faixas totalmente geradas por IA todos os dias, 34% de seu volume diário, e um aumento de 400% em relação a janeiro, quando o número era de 10.000 músicas diárias. Um estudo da própria Deezer afirmava que 97% dos ouvintes não conseguem distinguir entre música humana e sintética após um teste cego com os participantes do estudo, no qual foram apresentadas duas faixas, uma feita com IA e outra real.
O Spotify revelou, em setembro de 2025, que havia removido 75 milhões de “faixas spam” nos doze meses anteriores, uma quantidade que rivaliza com o catálogo completo de 100 milhões de músicas da plataforma. O caso emblemático da banda indie fictícia The Velvet Sundown ilustra a dimensão do fenômeno: esse grupo totalmente gerado por IA alcançou 1,5 milhão de ouvintes mensais no Spotify durante o verão de 2025, antes de seus criadores admitirem sua natureza sintética, pressionados pelos ouvintes.
O caso de Xania Monet é outra face do problema. Essa artista de R&B totalmente sintética gerou mais de 42.800 dólares em menos de dois meses, com mais de 17 milhões de streams totais, o que a levou à assinatura de um contrato discográfico multimilionário após uma guerra de ofertas em que uma gravadora supostamente ofereceu 3 milhões de dólares. Ao mesmo tempo, o country foi o primeiro gênero a ser apontado como o grande perdedor nessa guerra entre artistas reais e sintéticos: em dezembro de 2025, o número de músicas country geradas por IA superou em vendas os trabalhos completamente humanos.
Há um motivo claro para essas manobras: o dinheiro. Ferramentas como Suno e Udio são gratuitas, de modo que um usuário pode gerar centenas de faixas curtas e ganhar muito dinheiro com isso. Multiplique um caso assim exponencialmente e temos o cenário atual: envios massivos às plataformas, fazendas de bots que geram músicas e sobem faixas sem parar, automação dos pagamentos... Não se buscam sucessos isolados, mas somar milhões de reproduções, contra as quais um artista real não consegue competir.
Porcentagens
E é por isso que Bandcamp e Spotify são tão diferentes. O Bandcamp é um marketplace direto em que os artistas recebem, em média, 82% de cada venda, com a plataforma ficando com 15% nos itens digitais e 10% nos físicos, além de comissões adicionais de processamento de pagamento de 4% a 7%. O Bandcamp já pagou mais de 1,6 bilhão de dólares diretamente a artistas e selos desde sua fundação, em 2008, com 19 milhões transferidos apenas em 2025 graças aos “Bandcamp Fridays”, dias em que a empresa abre mão completamente de sua comissão. Essa estrutura faz com que a música gerada massivamente por IA seja contraproducente para a plataforma: ninguém compra álbuns sintéticos produzidos por meio de prompts.
Enquanto isso, o Spotify funciona por assinatura. A plataforma pagou 10 bilhões de dólares aos detentores de direitos em 2024, mas o pagamento médio por stream varia entre 0,003 e 0,005 dólares (o cálculo é feito com base na participação nas reproduções: o Spotify reúne toda a sua receita, separa cerca de dois terços para royalties, calcula que porcentagem do total de streams cada música representa e distribui os valores de forma proporcional).
Além disso, o Spotify implementou, em 2024, um limite mínimo de 1.000 streams anuais para que uma faixa gere royalties. Essa estrutura cria incentivos perversos: produção via IA, envio massivo de faixas, uso de fazendas de bots para inflar o número de reproduções... Esse sistema de pagamento por participação nos streams permite que frações minúsculas de centavo se transformem em quantias milionárias se houver volume suficiente.
O movimento do Bandcamp tem, claro, algo de proteção de sua imagem, mas também reflete a rejeição dos consumidores de cultura a produtos que podem ser classificados como “slop”: conteúdo de enchimento que prioriza velocidade e quantidade em detrimento de substância e qualidade. O Bandcamp se vê, sem dúvida, diante de uma tarefa titânica: detectar música gerada por IA não é simples, e a plataforma não especificou ferramentas ou metodologias para isso.
A pressão futura de grandes gravadoras pode corroer essa política à medida que a IA se normalize nos catálogos comerciais. Como afirma um internauta nos comentários do blog do Bandcamp: “Fico me perguntando se eles manterão essa postura quando a Warner começar a pressioná-los junto com outros distribuidores e plataformas, uma vez que a IA generativa se torne comum entre os artistas”. Por enquanto, o idealismo venceu a batalha.
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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