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Acordar às 3 da manhã é normal: dormir direto é uma invenção moderna, não uma evolução

A história, a biologia e a ciência do sono concordam: o despertar noturno não é uma anomalia, mas uma herança evolutiva que a modernidade apagou em apenas dois séculos

Dormir a noite inteira / Imagem: iam_os
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Em relação ao sono, existem algumas crenças profundamente enraizadas, como a de que adormecer em menos de cinco minutos é bom (spoiler: de jeito nenhum), que precisamos dormir oito horas (provavelmente estejamos dormindo até demais) ou que dormir direto durante toda a noite é o ideal. 

Mas olha só: essa última também é mito. A ciência do sono, a história e a biologia apontam na mesma direção: o sono ininterrupto de oito horas é uma invenção moderna. Entender e assimilar isso pode mudar a forma como encaramos nossas noites.

Até cerca de dois séculos atrás, o normal entre as pessoas não era dormir sem parar a noite toda. Elas se deitavam pouco depois do anoitecer, dormiam por cerca de quatro horas e depois acordavam por um tempinho para voltar a dormir em seguida, até o amanhecer.

Esse processo é conhecido como sono bifásico e está amplamente documentado ao redor do planeta. Virgílio já falava “da hora em que o primeiro sono começa para os mortais fatigados” em sua Eneida, embora uma das pessoas que mais tenha estudado esse fenômeno tenha sido Roger Ekirch, que dedicou 16 anos de pesquisa e reuniu mais de 500 referências de documentos de todo tipo.

Nós perdemos o sono bifásico por causa da luz artificial. Desde que, a partir do século 18, a humanidade passou a contar com lâmpadas a óleo, gás ou eletricidade, a noite se tornou um tempo aproveitável. E, como já sabemos, a luz não é inofensiva para o cérebro: inibe a produção de melatonina e altera nossos ritmos circadianos ao adiantá-los. Quanto mais luz recebemos antes de nos deitar, mais tarde adormecemos e menos provável é que acordemos no meio da noite.

A Revolução Industrial fez o resto: a rigidez dos horários acabou concentrando o descanso em um único bloco. O que a evolução humana havia consolidado ao longo de nossa existência, a vida frenética da produção e seus avanços transformaram para sempre.

O que fazer quando você acorda no meio da noite

Quando a ciência submete voluntários a condições que simulam as longas noites de inverno, sem luz, sem relógios e em completa escuridão, as pessoas retornam espontaneamente ao sono bifásico, com um período tranquilo de vigília. Um estudo de 2017 realizado em uma comunidade agrícola de Madagascar sem eletricidade corroborou esse padrão em condições reais.

A luz não apenas regula o sono, mas também afeta nossa percepção do tempo. Pesquisas do Environmental Temporal Cognition Lab da Universidade de Keele evidenciam que, com baixa iluminação, parece que o tempo passa mais devagar — um efeito que se intensifica em pessoas com baixo estado de ânimo. Isso explica por que, para muita gente, o inverno parece eterno e deprimente. E por que, se você acorda às 3 da manhã, o tempo parece demorar mais a passar.

Se esse despertar noturno tem base biológica, a chave está em como respondemos a ele. O tratamento habitual por meio da Terapia Cognitivo-Comportamental para a Insônia oferece orientações concretas: se você passa mais de 20 minutos sem dormir, levante-se e faça uma atividade tranquila com luz suave, como ler, por exemplo. E volte para a cama quando sentir sonolência. Além disso, esqueça o relógio: olhar a hora dispara a ansiedade.

Mas, acima de procedimentos, é importante entender algo: essa vigília não precisa ser um sinal de alerta, mas sim um indício de algo profundamente gravado na natureza humana. Aceitá-la, em vez de combatê-la, muitas vezes é o caminho mais curto de volta ao sono.

Imagem: iam_os

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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