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Se a pergunta é qual parte da Europa está ao alcance dos mísseis do Irã, a resposta é simples: uma parte bastante grande

Se o limite máximo real se aproximar de 3.000, o mapa político europeu entra no cálculo

Imagem | Mahdi Marizad, Defense Intelligence Agency, Mehr News Agency
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Fabrício Mainenti

Redator

Nas últimas décadas, o alcance dos mísseis tornou-se uma medida silenciosa do poder estratégico de um país. Cada poucos quilômetros adicionados ao seu raio de alcance alteram não apenas os mapas técnicos, mas também os cálculos políticos, as alianças e as percepções de segurança.

Nesse jogo de distâncias, a Europa já não parece tão distante como antes.

De 1.300 para 3.000 km

Já noticiamos isso. O Irã construiu sua dissuasão em uma família de mísseis de médio alcance (Shahab-3, Sejjil, Ghadr, Emad e Khorramshahr) com alcances que começam em 1.300 quilômetros e chegam a cerca de 2.000 a 2.500 quilômetros na maioria das configurações — embora certas variantes do Khorramshahr possam se aproximar de 3.000 quilômetros se reduzirem sua carga útil.

Esse limite é o que altera o mapa da Europa, e a razão é bastante simples. A 2.000 quilômetros, o Mediterrâneo Oriental e o Sudeste da Europa se encontram claramente dentro do raio de alcance, e a 3.000 quilômetros, o arco de ameaça se estende até o coração do continente. A diferença, portanto, não é técnica, mas estratégica.

O Mediterrâneo Oriental

Chipre tem sido o sinal mais claro de que a fronteira deixou de ser teórica. As bases britânicas de Akrotiri e Dhekelia, usadas como centros de logística e projeção aérea, estão totalmente ao alcance tanto de mísseis balísticos quanto de drones de longo alcance, como o Shahed-136.

De fato, a Grécia também se encontra dentro do mesmo arco, com a Baía de Souda, em Creta, a 2.300-2.400 quilômetros do Irã. Atenas, Sófia e Bucareste estão entre as capitais que se encaixam confortavelmente dentro do raio de 2.000 quilômetros.

Imagem de capa | Mahdi Marizad, Defense Intelligence Agency, Mehr News Agency

Turquia e Iraque: o cinturão exposto

A Turquia está localizada na primeira zona crítica. Incirlik, a pouco mais de 1.000 quilômetros de Teerã, é um alvo de alto valor devido ao seu papel na arquitetura aliada e à sua ligação com o programa de compartilhamento nuclear.

Kürecik, com seu radar AN/TPY-2, é o "olho" avançado do escudo antimíssil e, portanto, um alvo lógico em qualquer cenário de pré-supressão. No Iraque, bases como Ain al-Asad e Erbil, além da missão da OTAN em Bagdá, estão não apenas dentro do alcance balístico, mas também dentro do alcance de drones e redes de milícias apoiadas por Teerã.

Imagem de capa | Mahdi Marizad, Defense Intelligence Agency, Mehr News Agency

Europa Central: a área cinzenta

Quando o segundo e o terceiro arcos do mapa são projetados, cidades como Budapeste, Viena e Bratislava aparecem na periferia do alcance estimado. Bucareste fica claramente dentro do alcance de 2.000 a 2.500 quilômetros, o que coloca a base Aegis Ashore em Deveselu em uma posição sensível dentro do perímetro máximo do Irã.

Se o míssil Khorramshahr realmente atingisse 3.000 quilômetros, o que ainda está por se confirmar, a área de ameaça se aproximaria de cidades como Berlim e Roma. Claro, isso é apenas mais uma hipótese, mas aumentaria a pressão da fronteira leste em direção ao centro político da Europa.

Imagem de capa | Mahdi Marizad, Defense Intelligence Agency, Mehr News Agency

Os componentes do escudo e suas limitações

O sistema Aegis Ashore na Romênia, o implantado na Polônia e os destróieres Arleigh Burke no Mediterrâneo formam a espinha dorsal da defesa contra ameaças do Oriente Médio.

A Alemanha também adicionou o sistema Arrow 3 para reforçar sua camada superior de interceptação. No entanto, qualquer ataque teria que sobrevoar o espaço aéreo monitorado, como o da Turquia, Iraque ou Síria, o que aumenta a complexidade operacional e cria janelas de interceptação. O escudo existe, sem dúvida, mas não elimina o risco.

Imagem de capa | Mahdi Marizad, Defense Intelligence Agency, Mehr News Agency

Drones e saturação

Impossível ignorar. Além dos mísseis balísticos, o Irã transformou drones de ataque em multiplicadores estratégicos. Com alcances de até 2.000 a 2.500 quilômetros e custos muito inferiores aos de mísseis, podem ser lançados em ondas para desgastar as defesas.

Seu uso anterior contra instalações britânicas no Chipre demonstra que a barreira geográfica já não é um escudo automático. A combinação de sistemas caros e baratos complica a defesa.

Instalações subterrâneas e doutrina assimétrica

Como relatamos, a construção de “cidades subterrâneas” para armazenar e fabricar mísseis faz parte de uma estratégia concebida para compensar a falta de uma força aérea moderna no Irã.

Desde 1979, as sanções têm pressionado Teerã a investir em foguetes, túneis e alianças tecnológicas com outros países, tornando o míssil seu principal instrumento de dissuasão. Essa lógica assimétrica não busca igualar o Ocidente no ar e no mar, mas sim impor custos e vulnerabilidades em terra.

O que muda estrategicamente?

Enquanto o alcance efetivo permanecer em torno de 2.000 quilômetros, a ameaça se concentra principalmente no Mediterrâneo Oriental e no sudeste da Europa. Se o alcance real se aproximar de 3.000 km, o mapa político europeu entra em jogo.

A diferença entre 2.400 e 3.000 quilômetros não é uma nuance técnica, pois representa a linha que separa a periferia do núcleo continental. Dentro dessa margem, a priori, a percepção de risco para as capitais europeias e a credibilidade da dissuasão aliada estão em jogo.

Imagem de capa | Mahdi Marizad, Defense Intelligence Agency, Mehr News Agency

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