“Torneio de farmar aura”: milhares de jovens estão colocando seu carisma à prova com uma tradição milenar

Dos vikings à cultura ballroom, torneios de carisma são um costume clássico da humanidade

Farmar aura
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Relato original de Isra Fdez, do Xataka Espanha

O meme explodiu: "Vou participar do torneio de farmar aura. Meu rival na primeira rodada" e aparece alguém, talvez em outro contexto e de outro meme clássico, arrasando, fazendo algo em que é muito bom, seja o moonwalk ou um mewing afiado como um bisturi. Do que estamos falando? Vamos por partes, porque a molecada está levando isso muito a sério, com entrega de diplomas e 20 ou 30 mil pesos argentinos, que equivalem a pouco mais de R$ 100 na cotação atual. Isso mesmo, pedem que você leve sua própria caixa de som Bluetooth. Mas, antes, quero responder de forma rápida e sincera: é verdade que existem torneios de farmar aura? Para surpresa de todos, sim. E eles estão se espalhando.

No último fim de semana, centenas de pessoas lotaram uma praça em Mar del Plata para competir por “aura”. O evento terminou com pedras e garrafas voando entre grupos rivais. No Brasil, cidades como Belém (Pará), São Paulo e Juazeiro do Norte já organizam torneios regulares com juízes, rodadas eliminatórias e prêmios em dinheiro. Aliás, para o próximo sábado, dia 22, contabilizei seis torneios, nos quais “será definido quem tem mais aura por meio de rodadas repletas de humor, atitude e criatividade”.

A coisa se espalhou por Bolívia, México, Peru, Paraguai e chegou até o Malecón Simón Bolívar, em Guayaquil, no Equador. Mas, sobretudo, na Argentina: Mar del Plata, Patio Olmos, em Córdoba, nos arredores da Faculdade Regional Tucumán, em San Miguel de Tucumán, em várias praças de Paraná, capital de Entre Ríos, ou na praça 9 de Julio, em Buenos Aires. Todos seguem o mesmo roteiro. Bem-vindos ao esporte competitivo do carisma.

O que é farmar aura, agora falando sério

Farmar, do inglês “to farm”, significa “realizar atividades de fazenda; cultivar colheitas” e é um verbo adotado pelos gamers para designar a repetição de tarefas até acumular pontos, ouro ou experiência em títulos como League of Legends ou qualquer RPG. “Aura”, no dicionário da internet, funciona como um marcador imaginário de carisma, segurança e estilo. Juntando as duas palavras, surge a fórmula: fazer algo, com aparente naturalidade, que soma pontos simbólicos de presença diante de um público. Um “+1000 de aura” significa que você está transbordando carisma. Perder aura também existe: basta alguém rir de você ao tropeçar.

O primeiro registro documentado, segundo o Know Your Meme, data de 28 de janeiro de 2024: um usuário de TikTok publica um vídeo jogando boliche com as palavras “Aura Farming” na legenda e o clipe passa quase despercebido durante meses. O rapaz derruba os pinos como no desafio da garrafa.

A virada acontece em meados de 2025 com Rayyan Arkan Dikha, um menino de 11 anos da província indonésia de Riau. Durante o festival de canoas Pacu Jalur, Dikha exerce a função de Togak Luan, o dançarino que anima os remadores a partir da proa e, com óculos escuros e uma dança improvisada, torna-se a imagem definitiva do conceito: esforço zero, impacto máximo, segundo a BBC. O vídeo foi reproduzido por Travis Kelce, pelo PSG e pelo piloto de F1 Alex Albon. O governo de Riau nomeou Dikha embaixador cultural e lhe concedeu uma bolsa de estudos de 20 milhões de rúpias (R$ 1 milhão).

Da tela para a praça

A primeira batalha presencial nasceu este ano em Suzano, São Paulo, com mais de 200 pessoas e milhões de visualizações em vídeo, segundo o jornal La Nación. Não existe placar oficial nem jurado fixo: quem decide é o aplauso do público, como na patinação artística, embora sem cartelas com notas. Todos os cartazes são puro brainrot feito com IA. Porque os jovens abraçam o tosco assim como nós abraçávamos as lutas exageradas de Dragon Ball

Quem quiser vencer precisa entender que, em um combate, é preciso dominar um vocabulário próprio, quase tão codificado quanto o K-pop. O que mais pontua? O six-seven: levantar as duas palmas das mãos e movê-las alternadamente para cima e para baixo. Nasceu de uma frase do rapper Skrilla e explodiu graças ao armador da NBA LaMelo Ball. E o que acontece com o mewing? Pois é, manter a língua encostada no palato para marcar a mandíbula. A técnica vem da ortotropia do ortodontista britânico John Mew, que seu filho Mike transformou em fenômeno do YouTube em 2012.

Continuemos com um pouco de “aura walk”, uma caminhada deliberadamente lenta, mas segura, pensada para gerar tensão visual antes do confronto. Ela também aparece como pose, junto com comemorações de Cristiano Ronaldo ou o olhar de Messi antes de entrar em campo. Esse é o olhar sigma: olhos fixos, expressão neutra, zero piscadas, parente do mítico “olhar azul de aço” que Ben Stiller parodiou em Zoolander. Também não faltam comemorações esportivas ou danças espasmódicas que evocam o chorea voguing ou, pior, a dança de São Vito, um transtorno neurológico que, na Idade Média, provocava episódios coletivos de discinesia. No TikTok, funciona perfeitamente.

Nada de novo sob o Sol

E isso nos leva ao passado. Medir o status social por meio de uma performance pública diante de um júri informal tem séculos de história. Na Escandinávia viking, existia o flyting (senna ou mannjafnaðr, em nórdico antigo): um duelo verbal no qual dois participantes trocavam insultos em versos até que um deles ficasse sem repertório. Sim, as primeiras batalhas de rima.

Séculos depois, no Harlem dos anos 1960, a comunidade negra e latina LGBT desenvolveu a cultura ball: categorias, jurados e o vogue como arma de estilo, com casas rivais que se enfrentam em batalhas nas quais o gesto importa mais do que a força física.

O paralelismo estrutural está aí, só muda o vocabulário. Naquela época, posavam como modelos, pintavam-se com hieróglifos egípcios e faziam marchas militares. Daí vêm o "slay", o delineador infinito e o "throwing shade" — lançar uma indireta sutil para ganhar pontos diante do júri —, que agora alimentam a aura dos jovens em um combate em praça pública.

A aura antes das redes

Eu adoro a palavra aura. Ela vem do grego αὔρα (sopro, brisa), passa para o latim aura e chega intacta ao português e ao espanhol. Na mitologia grega, Aura é uma ninfa filha do titã Lelanto, estuprada por Dionísio e transformada em brisa após uma tragédia narrada por Nono de Panópolis e Ovídio; suas irmãs, as Auras, personificam os ventos suaves já na Odisseia. Do ar, passa para a luz: o halo ou nimbo (do latim nimbus, nuvem) envolve a cabeça de deuses e santos desde a Grécia clássica. O cristianismo o adotou no século 4 e o reservou para Cristo, a Virgem Maria e, a partir do século 5, todos os santos. A Mesopotâmia e a Pérsia tinham suas próprias versões, o melam ou khvarenah.

Um exemplo: as representações de Cristo com auréola, pintadas na arte do século 4, imitam a coroa de raios com a qual a arte helenística representava o deus solar Hélio. A versão new age chegou com a teosofia de Helena Blavatsky, descrita como essa "essência sutil e invisível" que emana dos corpos humanos. Um recipiente que serve igualmente para encaixar o prana hindu, os chakras budistas ou o que quer que você queira.

No século 19, o termo deu uma guinada esotérica: a teosofia descreve a aura como um campo energético visível para videntes treinados. Em 1939, Semión Kirlian fotografou descargas elétricas ao redor de objetos úmidos e batizou o resultado como prova da aura humana. A ciência desmontou isso rapidinho: o efeito é provocado pela ionização decorrente da umidade. Mas, pouco antes, Walter Benjamin já estava fascinado com seu "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica", definindo a aura como a manifestação irrepetível de uma distância, o aqui e agora que uma obra perde a cada cópia.

Chega de aula de história. O que não acabou foi o fato de que, 1.600 anos depois, continuamos medindo o carisma, retirando a auréola, mas concedendo likes, aplausos em praças e frases de "+1000 de aura". Na Argentina, streamers como La Cobra estão criando conteúdo de "Reação ao vivo" a eventos de farmar aura e há gente criando cartazes para batalhas de aura que voltam à iconografia bizantina, passada por um filtro aberrante de IA.

O modelo é o mesmo: as pessoas podem participar individualmente ou em duplas, entram e saem participantes e são realizadas rodadas eliminatórias até que reste apenas o melhor ou a melhor, quem possui mais aura. Farme infinito, irmão.

Imagens | Montagem a partir de vários cartazes no Instagram

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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