Um dos maiores filósofos do século XX já identificou o problema da Geração Z: "Não conseguem ficar entediados"

Estamos errados em fugir do tédio?

Unplash/Xataka
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Bárbara Castro

Redatora

Hoje existem diversas distrações na nossa vida: redes sociais, vídeos, celulares, videogames. Tudo na palma da nossa mão. Antigamente, no entanto, pessoas ficavam simplesmente sem nada para fazer, algo que precisamos ter de volta. 

Quem quer ficar entediado?

Redes e celulares podem ser invenções relativamente modernas, mas a "alergia" ao tédio não é. Um dos pensadores mais proeminentes e midiáticos do século XX, o filósofo, matemático e escritor britânico Bertrand Russell, já refletia sobre isso em particular.

Em uma de suas muitas falas memoráveis, ele deixou uma frase precisamente sobre ociosidade e tédio que hoje soa com uma força especial: "Uma geração que não suporta o tédio será uma geração de pouco valor."

Mas o que diabos Russell quer dizer com uma "geração de pouco valor"? É tão importante assim estar entediado? Afinal, a Europa em meados do século XX é uma coisa e nosso mundo hiperconectado é outra, o do TikTok, Spotify e Netflix. Qual é o sentido de tolerar o tédio em uma era de hiperprodutividade, a busca por eficiência a todo custo e em que não há bolso sem um celular?

Hoje sabemos que Russell não estava equivocado. Pelo menos com base nas observações feitas há alguns anos pela Dra. Teresa Belton, da Universidade de East Anglia, que já nos anos 1990 começou a explorar como a televisão estava afetando o desenvolvimento infantil.

Seu trabalho foi apoiado por outros estudos anteriores, como pesquisas macro realizadas na década de 1980 no Canadá, que descobriram que crianças criadas em comunidades sem televisão obtiveram pontuações mais altas em "habilidades de pensamento divergente", um indicador de sua imaginação. Essa vantagem desapareceu assim que a pequena tela entrou em suas vidas.

Apesar da "má publicidade" do tédio, há certos profissionais que afirmam que o tédio teve um papel fundamental em seu desenvolvimento criativo, tanto na infância quanto na vida adulta. Como exemplo, ela cita Meera Syal, escritora, dramaturga e atriz inglesa.

"O tédio a levou a escrever um diário, e é a isso que ela atribui sua carreira", explica a pesquisadora. Outro exemplo que ela apresenta é o da neurocientista e escritora Susan Greenfield, que também está convencida de que o tempo que passou na infância sem outra ocupação além de escrever e desenhar forjou as bases de sua carreira como estudante do comportamento humano.

"Você não precisa ter um talento especial. Simplesmente deixar a mente vagar de tempos em tempos parece importante para o bem-estar mental e o funcionamento. Um estudo até mostrou que, se fizermos alguma atividade simples e sem exigências, a mente errante tende a gerar ideias e soluções imaginativas para problemas", reflete no The Conversation.

"É bom ajudar as crianças a aprenderem a simplesmente aproveitar o lazer, e não crescerem com a expectativa de que devem sempre ser ativas ou entretidas. As crianças precisam de tempo para parar e observar, tempo para imaginar e desenvolver seus próprios processos de pensamento ou assimilar suas experiências por meio do brincar ou simplesmente observar o mundo ao redor", diz Belton antes de alertar que telas podem "curto-circuitar" esse processo e o desenvolvimento da criatividade.

Em um de seus artigos, ela até relembra o conceito de "flow" cunhado pelo psicólogo Mihalyi Csickzentmihalyi, algo que também pode ser transmitido a adultos que adoram escapar pegando o celular no metrô ou no elevador.

"Paradoxalmente, essa tentativa de evitar o tédio pode resultar em um tipo de insatisfação que é vivida como tédio", diz. "Flow é a sensação satisfatória de absorção total que sentimos quando focamos em uma atividade prazerosa, sobre a qual temos controle, mas que testa nossa habilidade. Escalar, escrever, resolver equações ou montar um móvel. Mas, se nossas habilidades forem superiores às necessárias para essa atividade, como o uso casual da internet, o resultado é tédio."

Rolagem infinita do doomscrolling

Nada surpreendente se considerarmos como jovens (e adultos) se lançam na "rolagem infinita" em busca de estimulação constante e ininterrupta e da sensação instantânea de satisfação. "Eles estão procurando essa novidade, aquela próxima dose de prazer, seja lá o que for que realmente possamos aproveitar", diz Éilish Duke, professora sênior de psicologia na Leeds Beckett University, antes de lembrar que esse fluxo constante de conteúdo mantém o "circuito de recompensas" dos cérebros dos adolescentes em "alerta máximo".

Estudos até sugerem que nossos cérebros são especialmente "programados para vagar" e que a capacidade de pular de uma ideia para outra pode ter um "valor evolutivo adaptativo" que nos distingue como espécie. "Geralmente nos dizem que é uma perda de tempo e energia mental, mas a capacidade de sonhar acordado nos dá enorme flexibilidade no dia a dia", argumenta Muireann Irish, da Neuroscience Research Australia.

"Isso facilita a resolução criativa de problemas, como aquele momento de "eureka" no chuveiro [...]. Outras pesquisas sugerem que nosso senso de identidade se fortalece quando sonhamos acordados. Ao lembrar eventos do passado e imaginar como o futuro pode ser, formamos uma ideia sólida de quem somos."

Isso significa que o tédio é um bálsamo para a criatividade e para o nosso cérebro e que devemos buscá-lo ativamente? A realidade é mais complexa.

O tédio também pode se conectar a questões muito menos edificantes, como a falta de atenção, e não faltam autores que qualificam que "tédio situacional" não é o mesmo que "tédio existencial", mas pelo menos a ciência do século XXI mostra que Russell não estava equivocado ao lançar seu alerta às gerações mais jovens.

Seu valor não dependerá apenas da capacidade de trabalhar, assumir esforços e sacrifícios, mas também de se entediar, um estado do qual hoje tendemos a fugir e que alguns especialistas consideram algo como "o prelúdio da criatividade".

Matéria traduzida de Xataka*

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