O enigma das "cachoeiras de sangue": como a bizarra cascata vermelha da Antártida ajuda cientistas a desvendar os segredos de vida em Marte

Uma salmoura rica em ferro transforma o gelo da Antártida em uma paisagem surreal, enquanto microrganismos encontrados sob a Geleira Taylor revelam pistas de um antigo ambiente marinho e ajudam a investigar os limites da vida em condições extremas

Catarata De Sangue
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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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o meio do branco quase absoluto da Antártida, uma faixa vermelha escorre pela Geleira Taylor, nos Vales Secos de McMurdo, a maior região livre de gelo do continente, como se o gelo tivesse começado a sangrar. Conhecido como Cachoeira de Sangue, o fenômeno é formado por uma salmoura extremamente salgada e rica em ferro que emerge de dentro da geleira e deixa marcas vermelhas sobre a paisagem.

A aparência é realmente impressionante, e é esse detalhe que atraiu os cientistas. Um estudo publicado na revista Nature Geoscience analisou 167 amostras de água, sedimentos e outros materiais dos Vales Secos de McMurdo e encontrou uma comunidade de microrganismos com características associadas a ambientes marinhos. Os resultados da análise reforçam a hipótese de que parte dessa vida descende de comunidades que chegaram ao local quando a região ainda tinha ligação com o oceano e permaneceram isoladas durante um longo período no gelo. 

Além de ajudar a reconstruir uma parte da história climática da Antártida, a descoberta também chama atenção por outro motivo. Ambientes como o da Cachoeira de Sangue funcionam como análogos naturais de condições que poderiam existir em outros mundos, permitindo estudar como organismos conseguem sobreviver em locais extremamente frios, salgados, escuros e com pouca disponibilidade de recursos.

Por que a água da Cachoeira de Sangue fica vermelha?

catarata de sangue

Apesar de parecer que a própria água tem a cor de sangue, o fenômeno tem uma explicação: a química do ferro. A Cachoeira de Sangue é alimentada por uma salmoura subglacial rica em ferro, que permanece presa sob a Geleira Taylor e emerge periodicamente por um sistema de canais. Quando esse líquido chega na superfície e entra em contato com o oxigênio, o ferro sofre oxidação, o que contribui para a formação dos materiais avermelhados que mancham o gelo. 

Essa salmoura é muito diferente da água comum. Além das altas concentrações de ferro, ela apresenta níveis elevados de sais, sílica e outros compostos. Sua salinidade é tão alta que a água consegue permanecer líquida mesmo em temperaturas abaixo de zero, criando um ambiente raro no interior do deserto polar. 

É nesse local pouco convidativo que os pesquisadores encontraram sinais de uma comunidade microbiana totalmente incomum. Entre os organismos identificados estavam diatomáceas, dinoflagelados, haptófitas e ciliados, grupos que incluem espécies associadas a ambientes marinhos. Nas amostras de lama e sedimentos vermelhos próximas à saída da salmoura, as diatomáceas de origem marinha chegaram a representar cerca de 80% da comunidade analisada. 

E como se já não bastasse, os pesquisadores não encontraram por ali apenas vestígios antigos. A análise metatranscriptômica identificou evidências de atividade biológica, incluindo processos relacionados à fotossíntese, respiração, metabolismo e respostas ao estresse ambiental. Isso indica que parte desses organismos estava metabolicamente ativa no momento em que as amostras foram coletadas. 

Microrganismos revelam que a Cachoeira de Sangue guarda uma antiga história marinha

Mas a história por trás da Cachoeira de Sangue começa muito antes da paisagem congelada que existe hoje. Para entender como uma comunidade de organismos associados ao ambiente marinho foi parar em um dos locais mais extremos da Antártida, é preciso voltar a um período em que o Vale Taylor tinha uma relação muito diferente com o oceano.

Os pesquisadores trabalham com a hipótese de que a água do mar tenha invadido o Vale Taylor durante os períodos mais quentes do passado. Com o avanço das geleiras, parte dessa água teria ficado isolada no subsolo e, ao longo do tempo, dado origem à salmoura que permanece presa na Geleira Taylor. Com o isolamento, as condições ambientais mudaram radicalmente. O antigo ambiente marinho passou a existir sob frio intenso, alta salinidade e períodos de ausência de luz. Mesmo assim, linhagens associadas ao mar parecem ter conseguido persistir nesse sistema por um período extremamente longo.

A genética desses organismos ajudou os cientistas a chegar a essa conclusão. Ao comparar as amostras da Cachoeira de Sangue com comunidades marinhas do Estreito de McMurdo, os pesquisadores encontraram uma conexão particularmente forte entre as duas regiões. As comunidades de diatomáceas da Geleira Taylor apresentaram padrões genéticos compatíveis com histórias de isolamento e persistência, incluindo linhagens distintas e alguns haplótipos compartilhados. 

No entanto, é preciso ter cuidado ao chamar esses organismos de “descendentes de criaturas marinhas antigas”. O estudo não encontrou animais gigantes ou seres congelados preservados no gelo. Trata-se de linhagens microscópicas, principalmente organismos eucarióticos, que carregam sinais de uma origem marinha e passaram por milhares ou milhões de anos de isolamento e adaptação. 

É justamente essa combinação que torna a Cachoeira de Sangue tão interessante para a ciência. O local reúne gelo, salmoura, ferro e microrganismos que conseguem tolerar condições extremas. E, ao estudar como a vida persiste em um ambiente tão hostil na Terra, os cientistas ganham pistas para pensar em lugares igualmente extremos fora dela, incluindo mundos onde a água pode estar escondida no gelo.

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