Um aeroporto construído sobre uma ilha artificial na Baía de Osaka, no Japão, está enfrentando um problema que começou ainda antes de sua inauguração: o afundamento. Isso acontece porque o Aeroporto Internacional de Kansai (KIX) foi construído em cima de camadas de argila mole que se comprimem com o peso de milhões de toneladas de aterro, fazendo a estrutura afundar gradualmente.
Desde sua inauguração em 1994, a ilha já perdeu cerca de 13 metros de altitude, obrigando os engenheiros a criar uma solução diferenciada para manter os terminais nivelados. Ao invés de tentar impedir completamente o movimento do solo, o projeto permite que pilares sejam elevados individualmente com macacos hidráulicos e placas de aço. A expectativa é que o aeroporto continue afundando cada vez mais devagar. Mesmo assim, algumas partes da ilha podem ficar abaixo do nível do mar por volta de 2056, segundo algumas projeções.
O aeroporto foi construído sabendo que o solo continuaria cedendo
Quando o Aeroporto Internacional de Kansai começou a ser construído, em 1987, os engenheiros já sabiam dos desafios que teriam que enfrentar com a obra. Sem espaço suficiente em terra para ampliar a infraestrutura aeroportuária de Osaka, a opção foi criar uma ilha artificial onde seria instalado um aeroporto inteiro. Mas essa escolha viria acompanhada de um detalhe que dificultaria o projeto: o solo.
O fundo da baía é formado por espessas camadas de argila e silte, materiais que se comportam de maneira muito diferente de uma base rochosa. Ao receber o peso da ilha artificial, esse material é comprimido e perde volume, provocando o recalque do terreno, abaixamento ou deslocamento vertical para baixo de uma construção. Os engenheiros sabiam que isso aconteceria. Tanto que a própria construção foi planejada considerando que a ilha continuaria se acomodando depois de pronta. Foram utilizados, inclusive, drenos de areia para acelerar a expulsão de água dos sedimentos e antecipar parte da compactação. Ainda assim, o comportamento do solo foi mais intenso do que o previsto.
- Em 1990, antes mesmo da inauguração, a ilha já havia afundado cerca de 8,2 metros. A estimativa original para esse período era de aproximadamente 5,8 metros;
- Na abertura do aeroporto, em 1994, o ritmo de subsidência ultrapassava 48 centímetros por ano;
- Em 2008, a taxa havia caído para cerca de 7 centímetros anuais;
- Em 2023, segundo dados da operadora, o ritmo estava em aproximadamente 5,8 centímetros por ano.
O processo, portanto, ficou mais lento com o passar do tempo, mas continuou acontecendo. E existe uma diferença importante entre afundar e afundar de maneira desigual. Se toda a ilha descesse exatamente na mesma proporção, o terminal poderia continuar nivelado em relação a si próprio. O problema acontece mesmo quando determinados pontos cedem mais do que outros. É aí que entra uma das partes mais curiosas do projeto.
Como o aeroporto consegue acompanhar o afundamento da própria ilha?
O terminal principal do Kansai não foi construído sobre pilares completamente fixos. Seus cerca de 900 pilares foram preparados para receber ajustes de altura ao longo da vida útil da estrutura. O sistema começa pelo monitoramento. Sensores acompanham individualmente o comportamento dos pilares e identificam diferenças de nível entre os diversos pontos do edifício. Quando um determinado apoio apresenta recalque maior, os engenheiros podem intervir apenas naquele local, sem precisar levantar o terminal inteiro. O processo funciona, de maneira simplificada, assim:
- Medição: sensores identificam quanto cada pilar se deslocou;
- Localização do problema: os engenheiros verificam quais pontos realmente perderam nível;
- Elevação: macacos hidráulicos assumem temporariamente a carga e elevam o apoio;
- Ajuste permanente: placas de aço são inseridas no espaço criado pela elevação;
- Monitoramento contínuo: o ponto volta a ser acompanhado para verificar novos movimentos.
A lógica é diferente de tentar transformar a ilha artificial em um terreno imóvel. O aeroporto foi construído para acompanhar o movimento do solo e corrigir suas consequências. Essa característica se torna especialmente importante porque o recalque não acontece de maneira uniforme em toda a área. Diferenças na distribuição de peso e na composição do subsolo fazem com que determinados pontos se comportem de maneira diferente de outros.
O sistema, por isso, funciona quase como um nivelador permanente em uma escala gigantesca: os sensores identificam onde surgiu o problema e os macacos permitem fazer pequenos ajustes antes que a diferença se transforme em uma deformação maior. A estratégia também explica por que o afundamento do aeroporto não significa que ele esteja prestes a sumir no mar. A subsidência vem desacelerando e a infraestrutura continua recebendo intervenções para permanecer operacional.
Mas o desafio é grande. Além do movimento do terreno, a região precisa lidar com tufões, tempestades, inundações e terremotos, riscos particularmente relevantes para uma estrutura construída dentro da baía. Mesmo assim, a estratégia adotada desde a construção permanece a mesma: os engenheiros monitoram cada alteração e ajustam a estrutura conforme necessário.
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