Desafio gigante no Japão: o aeroporto construído sobre uma "esponja" de argila que já afundou 13 metros e corre o risco de sumir até 2056

Construído sobre uma ilha artificial na Baía de Osaka, o Aeroporto Internacional de Kansai foi projetado para conviver com o afundamento do terreno, possuindo um sistema que reajusta seus pilares conforme o solo cede

Aeroporto De Kansai
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Um aeroporto construído sobre uma ilha artificial na Baía de Osaka, no Japão, está enfrentando um problema que começou ainda antes de sua inauguração: o afundamento. Isso acontece porque o Aeroporto Internacional de Kansai (KIX) foi construído em cima de camadas de argila mole que se comprimem com o peso de milhões de toneladas de aterro, fazendo a estrutura afundar gradualmente

Desde sua inauguração em 1994, a ilha já perdeu cerca de 13 metros de altitude, obrigando os engenheiros a criar uma solução diferenciada para manter os terminais nivelados. Ao invés de tentar impedir completamente o movimento do solo, o projeto permite que pilares sejam elevados individualmente com macacos hidráulicos e placas de aço. A expectativa é que o aeroporto continue afundando cada vez mais devagar. Mesmo assim, algumas partes da ilha podem ficar abaixo do nível do mar por volta de 2056, segundo algumas projeções.

O aeroporto foi construído sabendo que o solo continuaria cedendo

Quando o Aeroporto Internacional de Kansai começou a ser construído, em 1987, os engenheiros já sabiam dos desafios que teriam que enfrentar com a obra. Sem espaço suficiente em terra para ampliar a infraestrutura aeroportuária de Osaka, a opção foi criar uma ilha artificial onde seria instalado um aeroporto inteiro. Mas essa escolha viria acompanhada de um detalhe que dificultaria o projeto: o solo.

O fundo da baía é formado por espessas camadas de argila e silte, materiais que se comportam de maneira muito diferente de uma base rochosa. Ao receber o peso da ilha artificial, esse material é comprimido e perde volume, provocando o  recalque do terreno,  abaixamento ou deslocamento vertical para baixo de uma construção. Os engenheiros sabiam que isso aconteceria. Tanto que a própria construção foi planejada considerando que a ilha continuaria se acomodando depois de pronta. Foram utilizados, inclusive, drenos de areia para acelerar a expulsão de água dos sedimentos e antecipar parte da compactação. Ainda assim, o comportamento do solo foi mais intenso do que o previsto.

  • Em 1990, antes mesmo da inauguração, a ilha já havia afundado cerca de 8,2 metros. A estimativa original para esse período era de aproximadamente 5,8 metros;
  • Na abertura do aeroporto, em 1994, o ritmo de subsidência ultrapassava 48 centímetros por ano;
  • Em 2008, a taxa havia caído para cerca de 7 centímetros anuais;
  • Em 2023, segundo dados da operadora, o ritmo estava em aproximadamente 5,8 centímetros por ano.

O processo, portanto, ficou mais lento com o passar do tempo, mas continuou acontecendo. E existe uma diferença importante entre afundar e afundar de maneira desigual. Se toda a ilha descesse exatamente na mesma proporção, o terminal poderia continuar nivelado em relação a si próprio. O problema acontece mesmo quando determinados pontos cedem mais do que outros. É aí que entra uma das partes mais curiosas do projeto.

Como o aeroporto consegue acompanhar o afundamento da própria ilha?

Aeroporto Internacional De Kansai

O terminal principal do Kansai não foi construído sobre pilares completamente fixos. Seus cerca de 900 pilares foram preparados para receber ajustes de altura ao longo da vida útil da estrutura. O sistema começa pelo monitoramento. Sensores acompanham individualmente o comportamento dos pilares e identificam diferenças de nível entre os diversos pontos do edifício. Quando um determinado apoio apresenta recalque maior, os engenheiros podem intervir apenas naquele local, sem precisar levantar o terminal inteiro. O processo funciona, de maneira simplificada, assim:

  1. Medição: sensores identificam quanto cada pilar se deslocou;
  2. Localização do problema: os engenheiros verificam quais pontos realmente perderam nível;
  3. Elevação: macacos hidráulicos assumem temporariamente a carga e elevam o apoio;
  4. Ajuste permanente: placas de aço são inseridas no espaço criado pela elevação;
  5. Monitoramento contínuo: o ponto volta a ser acompanhado para verificar novos movimentos.

A lógica é diferente de tentar transformar a ilha artificial em um terreno imóvel. O aeroporto foi construído para acompanhar o movimento do solo e corrigir suas consequências. Essa característica se torna especialmente importante porque o recalque não acontece de maneira uniforme em toda a área. Diferenças na distribuição de peso e na composição do subsolo fazem com que determinados pontos se comportem de maneira diferente de outros.

O sistema, por isso, funciona quase como um nivelador permanente em uma escala gigantesca: os sensores identificam onde surgiu o problema e os macacos permitem fazer pequenos ajustes antes que a diferença se transforme em uma deformação maior. A estratégia também explica por que o afundamento do aeroporto não significa que ele esteja prestes a sumir no mar. A subsidência vem desacelerando e a infraestrutura continua recebendo intervenções para permanecer operacional.

Mas o desafio é grande. Além do movimento do terreno, a região precisa lidar com tufões, tempestades, inundações e terremotos, riscos particularmente relevantes para uma estrutura construída dentro da baía. Mesmo assim, a estratégia adotada desde a construção permanece a mesma: os engenheiros monitoram cada alteração e ajustam a estrutura conforme necessário. 


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